Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Ricardo Anísio


Para ouvir Caymmi

Dois discos resumem o teor da obra do compositor Dorival Caymmi, autor da frase "pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz"

O exercício de destacar dois discos de um compositor da estatura de Dorival Caymmi, não é fácil. Ou não seria. Porque para mim, há muito tempo, dois de seus álbuns ganharam uma importância bem maior na forma como passei a ouvi-los. "Caymmi também é de Rancho" (de 1973) e "Caymmi" (de 1972) são, na minha opinião, os dois lançamentos que resumem a genialidade do saudoso autor e cantor baiano.

Digo-lhes mais: só gosto de ouvir Dorival Caymmi com ele mesmo cantando. Não fico abobalhado com as belas leituras de sua filha Nana Caymmi e nem de Maria Bethânia. Gosto da voz grave e preguiçosa do mestre, talvez por causa de sua maneira despojada que bem poderia ter antecipado a Bossa Nova com muito mais riqueza poética e melódica. Mas isso é uma conversa que não cabe neste texto.

Para minha felicidade os dois discos aos quais me referi saíram editados em um único CD, o que me confere prazer ainda maior porque a metodologia da produção e a opção temática deles trazem sutis diferenças. "Caymmi também é de Rancho" é uma espécie de disco de exceção de Dorival Caymmi, com um repertório que mantém a temática marinha mas abrange outros motivos como nos clássicos "Marina" e "Rosa Morena", onde o mestre celebra as musas.

É verdade que apesar do título argumentar que Caymmi "também é de rancho" as marchas permanecem ancoradas nos mares da Bahia através de obras-primas como "Peguei um Ita no Norte", "Sábado em Copacabana", "Nem Eu" e "O Bem do Mar". O violão de Dorival Caymmi dialogava com sua voz grave de uma forma que cada composição navegasse completamente independente embora fluíssem de uma mesma fonte inspiradora. Esse é um dos mistérios a serem desvendados na obra "caymmiana".

A singeleza - não confundir com banalidade - do outro disco eleito para minha 'discoteca básica' tanto afetiva quanto estética, "Caymmi", é de uma beleza inenarrável. Vale lembrar que os arranjos destes dois álbuns, escritos pelo fantástico Maestro Gaya, deram uma elegância ainda maior às toadas praieiras ou não do saudoso gênio.

"Caymmi" é um disco perfeito, e me perdoe o filósofo que afirmou que a perfeição não existe. Querem coisa mais linda, e perfeita, do que "Promessa de Pescador"? E "Dona Chica (Francisca dos Santos Flores)"? Somente agora percebo que talvez eu tenha escolhido meus dois prediletos discos de Dorival justamente por eles não terem uma uniformidade entre si, como na maioria dos demais itens de sua discografia, cuja temática é uniforme, embora tratada com a criação dos gênios.

No disco de 1972 encontramos toadas como "Santa Clara Clareou", "Canto de Nana", "Sodade Matadera" e a célebre "Oração de Mãe Menininha" entre outras emocionantes e singelas criações do poeta do mar. A voz grave, o violão cadenciado, tudo em Caymmi é pura beleza. A emoção parece fluir de um templo budista à beira-mar, porque Dorival Caymmi era zen, por vezes parecendo mais uma entidade do que um homem.

Recomendo a aquisição de qualquer álbum de Caymmi, mas destaco "Caymmi também é Rancho" e "Caymmi" por neles vislumbrar a síntese temática e estética de um artista que cantou o mar e sua aldeia, assim como Luiz Gonzaga cantou a aridez dos sertões e seus lavradores. É em extremos assim, ligados divinamente pela paridade da arte nobre e encantadora, que consiste a força destes brasis tão próximos e tão distantes. É doce ouvir Caymmi cantar, como quem morre no mar.

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