Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Dyógenes Chaves


Direita, volver!

O papel da crítica de arte hoje não é o de apenas "intermediar" a obra de arte entre o público "leigo" ou de criar polêmica, mas dar espaço para o confronto de idéias e disseminar sentidos para as obras de arte

Ah, o sagrado direito de resposta! É tão bom podermos nos defender das críticas que julgamos injustas. Em sua maioria, as pessoas não se sentem bem quando são criticadas ou chamadas à atenção, muito embora, destas, algumas nem menos recebem uma crítica e já saem para o ataque pesado. Ora, há diversas formas de responder às críticas, desde usar o mesmo espaço, a mesma linguagem, até ignorar o fato. Só fica deselegante quando a "defesa" utiliza termos que agridem o lado "pessoal" de quem fez a crítica, sem escrúpulos, ou apela a argumentos inócuos. É o dito popular "bateu, levou". Já eu prefiro outro: "só se atira em árvore que dá fruto".

O papel da crítica de arte hoje - e isso é assunto recorrente na área - não é o de apenas "intermediar" a obra de arte entre o público "leigo" (alguns leitores, no caso desta coluna), ou, muito menos, de criar polêmica, mas dar espaço para o confronto de idéias e a disseminação de sentidos para as obras de arte. Cabe à crítica de arte (e mais ainda àquela publicada na imprensa) também se posicionar sobre questões históricas - sejam políticas, estéticas, educacionais, culturais, sociais etc. -, que tem afetado uma melhor compreensão do sistema da arte na sociedade atual. Conhecimento, lucidez, isenção e coragem devem ser os ingredientes desta crítica, eu acredito.

Há alguns dias, em artigo publicado neste mesmo espaço e me referindo ao desempenho do curso de Artes Plásticas da UFPB, eu disse que o mesmo, nos últimos vinte anos, não tinha cumprido seu papel. Talvez até tenha exagerado afirmando que o curso foi "quase um zero à esquerda", o que causou muito nhenhenhém. Não quis polemizar ou agredir gratuitamente. Mas, nada posso fazer com àqueles que vestiram a carapuça.

Antes de tudo, sei do valor de professores deste curso que são comprometidos com a qualidade do ensino na UFPB. Também sei de professores que incentivam (e levam) seus alunos a visitar exposições e ateliês de artistas, e a buscar conhecimento noutras "vidas" além do Campus. E sei de outros que tem emprestado suas experiências em ações na área social e na condução de projetos institucionais, mas, devo dizer que, por conseguinte, sei de professores que simplesmente não dão aulas. E sei daqueles que dão péssimas aulas. Isso não é privilégio só deste curso. Se esta é uma opinião pessoal, então, por que não fazer uma pesquisa junto aos alunos sobre o curso e os professores? Claro, não se deve avaliar um curso somente pelos seus resultados, mas também pelo processo que levou a este resultado. E por isso fiz, eu mesmo, um diagnóstico. Pois, seja como ex-aluno, artista, crítico de arte ou simplesmente cidadão, tenho esse sagrado direito de criticar. E saibam que conheço a realidade do curso e do NAC desde os anos 1980.

Alguns dados contundentes: o professor Gabriel Bechara, em artigo publicado neste jornal no último domingo, afirmou que o curso estaria lançando brevemente o seu Mestrado em Artes em parceria com a UFPE e a UFBA. Mas, o MEC acabou não aprovando a proposta. O motivo: os "vários doutores e inúmeros mestres" pouco produzem na área acadêmica. Quem mais perde com isso são os alunos e ex-alunos porque os professores falastrões ou omissos continuarão sua vidinha de sempre. Em sua maioria, não escrevem, não pesquisam, não publicam. Essa é a opinião do MEC.

Outros: para que citar tanta gente "importante" que circulou, deu aulas ou concluiu o curso? Isso não quer dizer nada. O Lyceu Paraibano, por exemplo, não é melhor por que teve entre os seus o poeta Augusto dos Anjos. Em tempo: na época da criação do curso de Artes Plásticas, a grande maioria dos professores não tinha o curso superior e foram contratados graças à famosa Resolução 200/77 (Notório saber). Mas isso também não quer dizer nada.

No mesmo texto de dias atrás, eu disse que, com "raras exceções, o NAC não passou de uma galeria de arte". Para bom entendedor, não é preciso entrar em detalhes. Se o NAC está hoje em "condição lamentável de manutenção" e "de onde os artistas fogem", além do abandono da reitoria da UFPB, a culpa deve ser dividida com o próprio curso que sempre olhou atravessado para o programa inicial do NAC. Diz também o professor Bechara que o "atual reitorado se prepara para construir, no Campus, um prédio próprio para atividades artísticas de extensão (...) onde a Pinacoteca da UFPB, que tem um dos melhores acervos de arte paraibana, terá sede definitiva". Acho uma maravilha e que pode muito ajudar o curso, mas, ainda está no papel. Todos - alunos, servidores e professores - sabem da situação deste acervo da UFPB. E não será um prédio novo que vai consertar o erro. Mais uma culpa que deve ser "repartida por todos os que fizeram e fazem o Curso de Educação Artística e o novo curso de Artes Visuais".

Reafirmo: o curso falhou porque se omitiu em "estabelecer laços mais estreitos com a comunidade universitária e os artistas locais", como aconselhou Paulo Sérgio Duarte, trinta anos atrás. Não retiro o que disse. Já o texto, tipo "propaganda enganosa", do professor Bechara, só me faz solidarizar-me com os alunos do curso. E que o SINAES - Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior aplique logo sua avaliação neste curso. Talvez aí saibamos se é mesmo um "quase zero à esquerda". Ou à direita.

Dyógenes Chaves, Artista visual e crítico de arte (ABCA)
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