Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Tarcísio Pereira


Esses ventos de agosto

O vento é tão aterrorizante que os feiticeiros antigos devem tê-lo interpretado como coisa do Maligno, e aí criaram um problema para o resto das nossas vidas

Vai chegando ao fim o mês de agosto. E, como todos os anos, tenho sempre um alívio quando agosto se vai. Como tanta gente, às vezes também sou vítima da superstição. Mas agora quero crer que não é medo de azar, é por causa dos ventos.

Fico me perguntando donde vem tanta superstição. Ou se existe uma explicação científica para tornar o mês de agosto diferente dos outros. Olho na biblioteca e nenhum livro que me leve à pesquisa. "Talvez os astrólogos expliquem, penso. "Devo procurar um livro de astrologia ou um estudo das horas, os dias, os meses e o ano, porque talvez a natureza venha explicar o que fazem os astros nesse período do ano; se há um desequilíbrio entre os planetas, em relação ao sol e à sua posição sobre a terra, para que possa influir com tanta energia negativa sobre as nossas vidas."

À noite, para dormir, fecho as janelas e, da cama, fico escutando a cantilena sinistra da ventania. "São os ventos de agosto, penso, e de fato é sinistro o som desse vento, lembro que o escuto todos os anos nesse período, ele vai de encontro às paredes do prédio, bate nas persianas fechadas e sempre provoca um ruído aterrorizante, como se trouxesse os sons de uma alcatéia faminta. "Bobagem, é apenas o vento. Agosto, realmente, tem a ver com esse vento, pois é o período do ano em que ele bate mais forte".

Com essa constatação, me ponho a perguntar se não é daí que advém a crença. Em agosto, o vento é tão aterrorizante que os feiticeiros antigos devem tê-lo interpretado como coisa do Maligno, e aí criaram um problema para o resto das nossas vidas, fazendo com que pessoas despreparadas passassem a rezar o dobro, a fazer simpatias, a acender velas, a se pegar diariamente com seu anjo da guarda, a olhar duas vezes antes de atravessar uma rua, a finalmente ficar preso em casa e só sair quando necessário.

Como sempre durmo com a TV ligada, acordo no meio da noite ouvindo uma voz do além que repete várias vezes a palavra agosto. Entre o sono e a vigília, não sei se estou sonhando ou se aquilo acontece. Abro os olhos e, ante a tela da televisão, percebo que está passando um programa evangélico, desses que são transmitidos de madrugada com a presença do pastor com uma bíblia aberta e um copo com água sobre a mesa. O pastor fala as mesmas palavras de todos os programas anteriores: refere-se a Demônio, Encosto, Descarrego, Vidas Desgraçadas e por aí vai:

- Se você está aflito, minha amiga, meu amigo, compareça ao nosso templo para uma sessão de descarrego...

E fala do mês de agosto. Diz que agosto é o mês da conversão. Que é a grande oportunidade de não aceitarmos o Demo em nossas vidas. E, com uma força de persuasão para quem de fato está aflito, passa a enumerar uma série de acontecimentos históricos do mês de agosto: mostra cenas da Segunda Guerra Mundial e do Vietnã; de prédios que tombaram; de acidentes aéreos, naufrágios, entre tantos outros episódios.

Quando já estou quase me entregando, e dando razão a ele, tenho a seguinte revelação, falando sozinho: "Poxa, essas coisas acontecem todos os dias, em qualquer mês do ano. Vejo tragédias diariamente nos jornais. Por que só estão mostrando as desgraças de agosto?"

Mais uma vez, alguém se aproveita da crença popular e reforça o mito. Se elegem as cenas das tragédias de agosto, talvez seja a hora de selecionarmos, também, as cenas de felicidade, e as felicidades ocorridas nos agostos por todos os séculos dos séculos. Pensemos nas coisas boas que acontecem em agosto da mesma forma que em dezembro e janeiro. Garanto que vamos encontrar uma série de coisas maravilhosas, e que os ventos de agosto possam uivar em paz como a voz de Deus que canta no deserto.

tarcisiopereira@bol.com.br
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