"A Bahia tem um jeito...", diz a letra de uma moderna canção urbana brasileira, "Terra", de Caetano Veloso. A pintura de César Romero também tem um jeito baiano de ser... brasileira, demasiadamente brasileira: traz de povos distantes, dos antepassados de África, principalmente, e dos que fizeram as Mil e Uma Noites, heranças simbólicas, que aqui se amalgamaram antropofagicamente ao passado das coisas índias nativas, e à contemporaneidade de movimentos exógenos, iconoclastas, como a Pop Art.
Há muito, muito o que falar da arte deste baiano que, às vinte horas da noite de hoje, inaugura a mostra individual de pinturas "BRamante", comemorativa de seus quarenta anos de fazer/desfazer/refazer nas artes visuais, na Galeria de Arte Archidy Picado, do Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho. Um privilégio que os paraibanos dividem, agora, com madrilenos, lisboetas, sevilhanos, cariocas, paulistanos, recifenses e natalenses - que a arte de Romero é cambiante, navegante, nascida no balanço dos mares, nas tormentas dos oceanos.
Entre tantas conceituações que buscam definir rótulos que facilitem a identificação das linhas estéticas de uma urdidura, de uma trama artística, diria que a pintura de César Romero alinha-se com a "escola geométrica", mas que se individualiza por suas "estamparias" abstratas, pelos "planos de fundo" surrealistas. O artista tira dos corpos, das ruas, dos mitos e dos ritos a sensual sinuosidade, o colorido luxuriante, o irracionalismo complexo, arbitrário, de símbolos, signos, sinais. Com eles, num pontilhismo comedido, numa gestualidade serena, desfralda sua agressiva bandeira...
Continua na C2
inícioNas páginas de "César Romero - A Escrita do Brasil", de Jacob Klintowitz, telas sem títulos. A mente, movendo-se sozinha nos labirintos, na penumbra dos lagos, busca (com os faróis invisíveis dos olhos) o Fio de Ariadne, até ser encoberta pelas cores, tragada pelas formas, dissolvida pelas sensações. A misteriosa forma paira sobre um horizonte de sonhos, anterior à palavra, rompendo cercas, fronteiras, no limite do céu... O desconhecido é o destino, o porto (a)final. Bandeiras "tremulam" em sincronia inaugurando o monumento - humano - numa paisagem extraterrestre, lunar.
Dito isso, honesto, movo os olhos, somente agora, para o que (des)escreve, para nós, jornalistas, César Romero. "BRamante", explica o artista, é uma teimosia afetiva: ser amante do Brasil - apregoar, clamar, fazer ouvir, ver, a voz e o construir de um artista com quarenta anos de trabalho. "'BRamante' é o tecido onde busco revelar bens culturais de raiz brasileira. Meu brado visual de amante apaixonado. Busco transfigurar o país em forma, linha e cor. Registrar a alma e a essência de uma gente, que vive a alegria como destino, apesar das profundas diferenças sociais", completa.
Gosto da arte e da retórica de César Romero. Poderiam ser minhas essas frases quase-poemas: "A festa e o prazer são antídotos da loucura. Manhãs, tardes, noites, segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos, vivo buscando meu centro e a síntese entre o imaginário popular nordestino e a afrodescendência. Inscrições da aldeia natal." Poderíamos, portanto, contemplar este quadro do artista ao som de batuques. Aquel'outro em estado alterado de consciência. O de lá, às portas da percepção, com este duplo jeito sisudo e desleixado com que Deus nos abençoou.
"César Romero trabalha o Nordeste. Seu trabalho vem de uma perspectiva histórica, que veio do modernismo, e essa matriz cultural que veio do modernismo, foi desenvolvida depois, por artistas como Volpi e Rubem Valentim. É uma matriz que visa elaborar uma arte profundamente identificada com a cultura brasileira. No caso de César Romero, a matriz é o Nordeste, que procura interpretar através das festas populares, explorando os signos do candomblé e a influencia das religiões Afro e do artesanato do povo simples e trabalhador". Palavras da crítica! (William Costa)
Arte laboriosamente pensada. Linguagem minuciosamente inventada. Transfiguração de signos e sinais populares para uma plasticidade de natureza erudita. Assim funciona a carpintaria artística de César Romero. Antenado e harmonizado com o tempo e o espaço interior e exterior.
início
A programação da Mostra Estadual de Teatro e Dança chega, hoje, ao penúltimo dia de apresentações competitivas. O evento, realizado pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), acontece no Teatro Santa Roza e, hoje, apresenta três espetáculos de dança (sendo um da Mostra Paralela) e um de teatro, todos de João Pessoa. O espetáculo de dança "Ciclos”, dirigido por Dioclécio Barbosa, abre a programação desta quinta-feira, às 19h, seguindo de "As Três Irmãs", de Joyce Barbosa, às 20h, "Paraíba Minha Gente" (dança), do Grupo de Dança Primavera, às 20h40, e "A Cruz da Menina" (teatro), do Grupo Moca, às 21h.
"Ciclos" mostra o percurso do ciclo da vida do ser humano através do olhar do universo feminino, revelando que através dos tempos as dores, brincadeiras, ódios e amores estão presentes na trajetória da humanidade independente de raça, cor, religião e época; e que o fim pode ser o recomeço de tudo.
"As Três Irmãs" é desenvolvido a partir da obra-prima do escritor russo Anton Tchekhov, e contempla a vida de três irmãs. Elas vivem suas frustrações no interior da Rússia do século XIX, tendo que aprender diariamente a lidar com a ânsia de sonhos maiores, conjuntamente com a ausência da percepção de querer alcançá-los.
"A Cruz da Menina", montagem do Grupo Moca, faz uma releitura da obra de José Mota Victor e inspira-se, também, no romance homônimo "A Cruz da Menina", do escritor Flávio Sátiro, na qual narra a história da menina elevada à condição de milagreira pela força da fé do povo sertanejo. Na peça, um casal de retirantes entrega única filha para casal de posses, que depois de fazê-la de empregada surra até a morte e joga o corpo num desfiladeiro. Desde então é atribuído a ela vários milagres.
Em "Paraíba Minha Gente", através de músicas e dos movimentos, o Grupo de Dança Primavera homenageia o povo paraibano, expressando o encantamento pela terra, considerada lugar de gente guerreira, forte e feliz. A trilha sonora escolhida evidencia o perfil e a garra do povo nordestino.
Os ingressos para a Mostra Estadual de Teatro e Dança da Funesc custam apenas R$ 2 (preço único). Mais informações pelos telefones 3211-6250 e 3218-4386.
inícioO projeto Quintas Musicais desta semana terá um formato diferente, que certamente deleitará os amantes da música clássica. Diversos grupos de Cordas da Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB) estarão passando pelo palco do Cine Bangüê do Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho, hoje, às 20h. A apresentação faz parte do projeto Quintas Musicais da Funesc que propicia a oportunidade do público manter contato com os músicos eruditos que atuam em João Pessoa. Os grupos serão regidos pelo maestro titular da Sinfônica paraibana, Marcos Arakaki. Será cobrado um preço simbólico de R$ 2 para o público em geral.
Para essa noitada musical foram escolhidas a dedo peças musicais de compositores eruditos que não ganharam a mesma fama dos mais populares, mas que contudo escreveram obras belas e emocionantes. Destacam-se obras como "Kannon"; de H. Purcell, "The Virtuose Wife"; de A.Copland, "Two Pieces for Strings Orchestra"; de L.Janacek, "Suíte for Strings"; e de C. Guerra Peixe, "Mourão".
Há que se destacar a presença do brasileiro Guerra Peixe, um maestro, músico, compositor e arranjador que soube dialogar com a música popular do Brasil quando ainda havia um distanciamento enorme entre os universos eruditos e o da canção de autores como Luiz Gonzaga e Chico Buarque, de quem Guerra Peixe gravou discos orquestrados com arranjos ousados e super criativos.
Neste concerto de hoje vários grupos de cordas formados por músicos
da Orquestra Sinfônica da Paraíba estarão se apresentando
sem que com isso o público seja privado da Orquestra em sua completitude.
É sempre com lembrar que o grupo sinfônico paraibano é
conhecido internacionalmente e chegou a lançar dois CDs pelo selo Dellus,
no Estados Unidos, e desde então passou a constar entre as melhores
formações sinfônicas do país. Outro CD gravado
pela OSPB foi com o saudoso músico Sivuca, em um momento inesquecível.
A aproximação dos músicos eruditos de solistas populares
tem sido uma prática utilizada como forma de criar no público
o gosto pela formação clássica. A OSPB já tocou
com Fafá de Belém, Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Ângela
Ro Ro, Flávio José entre outros.
O concerto de hoje terá o regente titular da OSPB Marcos Arakaki, no
comando. Arakaki, além de ser regente da Orquestra Sinfônica
do Estado da Paraíba é também regente assistente da Orquestra
Sinfônica Brasileira no Rio de Janeiro, cargos que passou a ocupar em
2007, o que confirma sua capacidade e seu prestígio a níveis
nacional e internacional.
Arakaki é graduado em violino pela Universidade Estadual Paulista (1998) e tem mestrado em regência orquestral pela Universidade de Massachusetts (2004), nos Estados Unidos, e elevem destacando-se no cenário nacional como um dos mais promissores regentes de sua geração.
O maestro Marcos Arakaki regeu orquestras sinfônicas como a dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Paraíba, Petrobras Sinfônica, Sinfônica Brasileira, de Campinas e a Orquestra Experimental de Repertório além da Boshulav Martinu Philarmonic na Republica Tcheca, Kharkov Philarmonic na Ucrânia, Filarmônica de Buenos Aires na Argentina e a Orquestra da American Academy of Conduting em Aspen nos Estados Unidos.
Em 2001 venceu o I Concurso Nacional Eleazar de Carvalho para Jovens Regentes realizado no Rio de Janeiro, e também foi premiado em outros concursos como o VI Concurso Latino Americano de Regência Orquestral realizado pela Orquestra Sinfônica da USP em 2002 e o I Concurso Latino Americano para Regentes realizado pela OSESP em 2005. Dentre os maestros que fizeram parte de sua formação destacam-se: Kurt Masur (São Paulo, 2001 e 2003), Charles Dutoit (Buenos Aires, 2004), Alain Hazendilne (Republica Tcheca, 2003), Sir Neville Marriner, Leonard Slatkin, David Zinman (Aspen, 2005) e Roberto Minczuk (campos do Jordão, 2006).
Marcos Arakaki foi regente assistente da Orquestra Sinfônica de Santo André, principal regente convidado da Camerata Fukuda e principal regente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto.
inícioO Coral “Vozes do Sanhauá”, do maestro Maurício
Gurgel, abre novas vagas em seu quadro de cantores nas modalidades música
sacra, popular e contemporânea. As inscrições são
gratuitas e podem ser feitas na sede da Musical Center, localizada na Avenida
Monteiro da Franca 1720, próximo ao Habbib's em Manaíra. Mais
informações podem ser obtidas pelos telefones 3246-2176 e 9921-2916.
O maestro Maurício Gurgel explica que o candidato, após o ato
de inscrição, será convocado, posteriormente, para fazer
o teste de seleção. O regente ressalta ainda que não
será exigida nenhuma experiência musical comprovada. Os candidatos
serão submetidos a testes de voz, de caráter simples, individual.
Os testes com os candidatos pré-selecionados serão gravados e analisados por uma comissão classificatória. Seu resultado determinará a possível ordem de convocação para ingresso no Coral, que poderá ocorrer de imediato ou ao longo do semestre, obedecendo a necessidade de contingência de cada naipe (subgrupos de vozes do coral: soprano, contralto, tenor e baixo).
inícioO vídeo "Debaixo dos Lençóis", dirigido por Mabel Dias, Lila Santos e Bethânia Lira, será lançado, hoje, às 19h, dentro do Projeto Vídeo-Lançamento, no no mini-auditório do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Rua Desembargador Souto Maior, 281, Centro. Trata-se de um vídeo-documentário que retrata a história de cabarés pessoenses e dos personagens que fazem parte dessa história, que protagonizaram acontecimentos marcantes desde a década de 30 até a década de 70, época que marca o fim dos sofisticados cabarés da pacata João Pessoa, sobretudo da rua Maciel Pinheiro.
Mabel Dias explica que o vídeo pretende contar as histórias, exaltações e o que acontecia nesse mundo dos cabarés. "Tivemos a idéia de montar esse vídeo a fim de descobrir e revelar as histórias debaixo dos lençóis, as histórias que não podiam mais ficar escondidas", revela. "A proposta surgiu a partir do momento em que a gente freqüentava alguns eventos na Rua da Areia, e veio a curiosidade de saber o que acontecia lá, quem freqüentava, e fomos conversando com algumas pessoas", ressalta.
Já em relação às dificuldades encontradas, Mabel afirma que foram dois anos difíceis de projeto, enfrentando muitos percalços no caminho. "Por ser um vídeo independente, tivemos que bancar toda a parte financeira, o figurino, maquiagem, etc, mas o resultado está aí, e é muito positivo", comenta.
O vídeo traz ainda entrevistas do jornalista Wills Leal, dos fotógrafos Arion Farias e Ricardo Peixoto, do médico Paulo Soares e do filho da travesti Marlene, Webston Fernandes, dono de um dos bares mais conhecidos da Maciel Pinheiro.
O Vídeo-Lançamento é desenvolvido pelo projeto CineSesc, do Serviço Social do Comércio da Paraíba, através do Setor de Cultura da Unidade do Sesc Centro. Mais informações pelo telefone (83) 3208-3158.
inícioDos belos jardins coloridos e extensos do Engenho Bujari vislumbrei na linha do horizonte o início das terras do Olho Dágua. Bem que ele poderia estar ali. A casa em que nasceu, viveu parte da vida, primeiros documentos. E José Américo de Almeida poderia também estar na cidade onde nasceu. Dividir com a cidade de João Pessoa. Daí governou o Estado.
Estive fazendo um passeio pela vida do senhor Ministro. Viveu e apareceu no Brasil inteiro. Não foi apenas um interlocutor local de discussões e acordos com prefeitos, dividindo recursos, dividindo poderes. Dividia idéias pelo Brasil. Dividia também, na Paraíba. Muito alto, um estadista. Eu, do Bujari, olhando para os lados do Olho Dágua, lembrei a pergunta de Getúlio Vargas: "que faço, Ministro?" Resposta pronta e contundente: "Renuncie." Dali, daqueles altos, daquela altitude, quanta precisão de resposta diante de uma situação extrema. Sabia. Dali, daquelas terras verdes tão bem cultivadas, fui para São Paulo. No período que lá vivi ocorreu o aniversário da Cidade. Esteve presente. Agenda completa com Fiesp, Diários Associados e Administração do Estado.
Da Federação das Indústrias de São Paulo de onde na companhia de diretores e assessores - inclusive Raphael Noschesi - visitou fábricas, consideradas inovadoras. O Governador de São Paulo abriu sua agenda para acompanhá-lo pela exposição de novas tecnologias adquiridas. Era o período de significativo crescimento da velocidade industrial do Estado de São Paulo. A visita ao congênere, inteligente, Assis Chateaubriand na companhia do jornalista, na época articulista dos Diários, José L. de Almeida, trocava idéias. E, assim, na Paraíba, no Rio onde morou, era procurado em todos os momentos.
Dentre as atividades acontecidas acompanhou a posse de dois nordestinos como Secretários do Governo do Estado de São Paulo: Humberto Reis Costa Agricultura e José L. de Almeida. - Aliança para o Progresso. Mobilidade e marca, sempre citado, numerado, relevado. Ao início de tudo isto, vi aquele sorriso que repuxava as linhas do rosto numa posião de decisão constante.
A Fundação da Escola de Agronomia do Nordeste pelo homem que agora lembramos, não foi ato único. Seu principal investimento foi na disseminação de idéias novas, de posições tomadas para o Nordeste. A cada visita, uma difusão de muitas idéias originais e, principalmente, inovadoras.
Semestre a semestre, ano a ano, José Américo estava presente à cidade em que nasceu - Areia. Escola de Agronomia, Riachão, Vaca Brava, Colégio Santa Rita - Madre Carolina, eram interlocuções preferidas. Fez isso, até quando pôde. Eu, uma testemunha. Diante dessas comparações realizadas, saliento a importância exponencial de sua trilogia, A Bagaceira, Boqueirão, Coiteiros, que tantos o fazem em conjunto.
A Bagaceira me impressiona similar a Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado e Ciclo do Açúcar de José Lins do Rego. São livros que apresentam o problema econômico e social do Nordeste e Brasil. Realidade nova, realidade mostrada pela primeira vez com abordagens diferentes, originais. Isto, em 1928. Uma visão brilhante. Viu o que outros estudos queriam demonstrar. Ele conseguiu de forma especial. Um marco.
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