Coisas do Brasil. Coisas de um país onde a indústria fonográfica em cumplicidade com a mídia eletrônica trata de destruir a nossa rica história musical para dar vez à mediocridade. Somente isso pode explicar o fato de um compositor e intérprete como o carioca Sidney Miller (1945 - 1980) ser praticamente um desconhecido em sua pátria. O fato de ter falecido jovem, aos 35 anos de idade, e de ter gravado apenas três discos, não fez Miller ser menos genial do que astros como Chico Buarque e Gilberto Gil entre outros.
A reedição em CD de seu álbum "Línguas de Fogo" de Sidney Miller oferece aos interessados a possibilidade de revisarem uma das páginas musicais brasileiras engavetadas como tantas outras, como a de Sérgio Sampaio, por exemplo, outro proscrito da canção nacional. O citado álbum de Miller traz composições inspiradas que transitam entre a classe e a fina ironia.
Lançado originalmente em 1974 "Línguas de Fogo" descortina a genialidade soterrada não apenas de um grande autor, mas de um artista de dotes fenomenais que deve constar, sem nenhum favor, entre os mestres da história musical de seu país. O fato de sua discografia ser pequena não quer dizer nada. Há os que gravam um só disco e o fazem valer por dezenas de banalidades fonográficas que em nada contribuem para a glória fonográfica brasileira.
Há 34 anos ainda não era muito comum, por exemplo, um artista entrar no estúdio e gravar todos os instrumentos. Miller fez isso algumas vezes. Em "Línguas de Fogo" cuidou de escrever os arranjos, fez todos os vocais e revezou-se entre a guitarra e o violão, além de cantar de forma emocionante.
Não costumo achar interessante estabelecer um ranking de discos e nem de canções brasileiras, principalmente por causa da diversidade de estilos e gêneros onde encontramos uma riqueza imensurável. Mas ouso dizer que "Línguas de Fogo" deve constar em qualquer lista bem intencionada que se faça dos 50 discos mais importantes e belos da MPB. E o leitor provavelmente irá me perguntar: por que uma obra de tão relevo repousa no ostracismo?
Renderei-me a inquirição. Usarei uma prova material (e imaterial também) como forma de advogar em causa da minha adoração pelo disco antológico de Sidney Miller: comprem-no ou o tomem emprestado de alguém e obterão a resposta. Recomendo logo a primeira faixa, "Cicatrizes", gravada brilhantemente pelo grupo MPB-4 em disco que recebeu o nome da canção.
Provavelmente citar uma faixa entre as 11 pérolas musicais escritas e arranjadas por Sidney se tornará uma injustiça. Mas as minhas preferidas são "Dos Anjos", "Alento" e "Um Dia Qualquer". É que não consigo fazer como os que são ouvintes de ocasião, que gostam de coletâneas (os famosos discos com 'o melhor de') e compilações tendenciosas. Geralmente ou gosto de um álbum todo, por sua concepção geral, ou desprezo as eventualidades.
Sidney Miller não foi um autor de lampejos. Foi, isso sim, um lampejo que marcou a música brasileira e lhe imortalizou com direito a todas as honras e glórias. Não se afere a obra de um artista pela quantidade ou pelo sucesso, principalmente na música, onde as injustiças são freqüentes. No caso do Brasil a cultura rasa de sua população deixa verdadeiros gênios perdidos em páginas empoeiradas da história.
Ele não teve as honras e glórias às quais me refiro, mas certamente os conhecedores de música e os historiadores argutos da MPB um dia lhe levarão ao panteão devido. "Línguas de Fogo" (editado em CD no ano de 2007 pela gravadora Som Livre) é sim um dos mais belos discos de canção brasileira elegante musicalmente, e criativa e instigante no que tange à construção poética.
Além desta obra citada Sidney Miller gravou apenas mais dois discos: "Sidney Miller" (de 1967) e "Brasil: Do Guarani ao Guaraná" (de 1968). Sua morte chegou a causar alguma polêmica, com alguns noticiários afirmando que ele havia cometido suicídio, mas a causa oficial de sua morte divulgada foi uma parada cardíaca. Leve-se em conta que a medicina àquela época não era assim tão cheia de recursos como hoje, e que um homem de 35 anos não tem uma parada cardíaca sem algo que a motive.
Isso importa pouco. O que fica de relevante nessa história de vida curta é uma obra que pela qualidade merece conceder a imortalidade a Sidney Miller mais um de tantos artistas injustiçados nesta Música Popular Brasileira rica e plural.
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