Após fumar 7 pedras de crack, um elemento de 23 anos estuprou e estrangulou Daniely de 15 anos. Com cinismo afirmou: "fiquei doidão e fiz". Chegou a ir ao velório da vítima, onde quase foi linchado. A droga levou o elemento a tal nível de perversidade. A droga explica, mas, não justifica a prática do ato de sevícia contra uma adolescente indefesa e inocente. O gesto seguido de afirmações irônicas provoca comoção, estupor e revolta. Hoje em dia tais ocorrências se tornam freqüentes; passam a ser cena do dia; passam do estágio de horror a cenas do cotidiano. A sociedade já se acostumou com fatos como esse, domesticada pela violência.
Segundo levantamento do jornal O Globo, o Ministério da Saúde registra 5.049 homicídios de meninos e meninas com idades até quatorze anos entre os anos de 2000 e 2005. Segundo estatísticas, apenas 10% dos casos de abusos físicos e psicológicos contra as crianças são denunciados (confira os dados através do Sistema de Informações sobre Mortalidade). A pior agravante reside na violência doméstica. Segundo dados do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), o Brasil constata 532 mortes de crianças e adolescentes entre 2000 e 2007, em decorrência da violência doméstica. Incluem-se como fatores comprobatórios: a negligência, a violência física, a violência psicológica e a violência sexual.
Não é possível admitir que uma adolescente ingênua, carinhosamente educada e amada por seus pais, torne-se "a bola da vez" nas mãos de um bandido que a estupra e a brutaliza até a morte. Os pais de Daniely, evangélicos praticantes, certamente não receberam nenhuma visita da parte de alguma comissão de direitos humanos. O assassino não se retratou nem se intimidou ao declarar friamente que com muita droga "ficou doidão". Pensem: há pouco, houve a tentativa de defender e organizar uma marcha pela liberação da maconha! Além do cinismo, o espírito de perversidade deforma o caráter dos jovens. Esse sintoma de desequilíbrio vai tomando conta das pessoas, das famílias, das instituições, da sociedade de consumo.
Pela análise dos sintomas tentamos descobrir as causas. Quando não existem mais condições para se colocar limites entre o certo e o errado, fatos escabrosos como esses tendem a se reproduzir. Percebemos claramente que em muitas famílias abandonam-se os valores humanos, como a honestidade, a franqueza, a gentileza, o sacrifício pelos outros. Muitos pais não conseguem mais colocar limites e também dificilmente conseguem convencer seus filhos sobre o valor do respeito à dignidade inalienável do ser humano. Há sintomas reveladores dos pais que nem tentam ou desistem de vez da educação humana e cristã dos próprios filhos.
Percebemos os sintomas que denotam a falta de amor fraterno, tornando os ambientes doentios, onde a lei é do mais forte, onde há brigas, discussões, disputas, interesses mesquinhos. Em muitos lares e ambientes já não existe mais espaço para Deus, para a leitura do Evangelho e outros atos de religião. Não se recitam orações, não se tem tempo para as rodas de conversas. Gestos de gentileza e de bons modos são debochados com sarcasmo e protesto. Em nome da liberdade sem limites nos damos direitos (que não possuímos), usando as pessoas como objetos, para delas obter vantagens. Na sociedade de consumo usamos as pessoas como moeda de troca para obter algum prazer "imediato".
Enfim, negamos a lógica da razão e a substituímos pela emoção de momento. A força de vontade é dominada pelos vícios. Perdemos a fé em Deus e o respeito pelas pessoas. Amor é lorota. Vale a grana fácil, o prazer sem compromisso, a vantagem individualista. A sociedade foi contaminada por manifestações de violência. Seu vírus deflagra uma pandemia. Nesse contexto, o estupro seguido de assassinato de Daniely é interpretado como fato corriqueiro. Os fundamentos da civilização cristã estão carcomidos. A perda dos valores, sobretudo da família, leva crianças, adolescentes e jovens a não aceitarem mais limites para nada! "É proibido proibir". Álibi que é usado para a moçada fazer tudo o que bem entender e quiser. O que vale é o desejo e a emoção. Nem todo desejo da moçada é realizado. Daí a frustração. Desejo frustrado? Busca adoidada de compensação. Fuga para as drogas. Das drogas ao crime.