Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 28 de Agosto de 2008

Ademilson José


O Dia dos Pais

Veja que não existe dia dos filhos e dia das filhas; o que existe é Dia das Crianças.

Tem uma idéia me incomodando aqui e seria melhor se ela tivesse virado artigo no dia dos pais. Infelizmente não deu, mas já que ainda estamos no mês de agosto, não vou deixá-la para o ano que vem.
É o seguinte: A igreja, o sistema escola, o Ministério Público e as autoridades competentes precisam, urgentemente, acabar com esse negócio de Dia dos Pais no nosso calendário.

E vou dizer por quê: Como pai é claro que sempre vou às reuniões ou as festividades dos dias dos pais na escola do meu filho e, a cada ano que passa, só saio impressionado com a quantidade de crianças que estão sempre sozinhas ou, no mais das vezes, com os pais sendo representados pelas mães.

A coisa é tão expressiva que, este ano, por exemplo, o apresentador da festa levou a tarde repetindo que estávamos comemorando "o dia dos pães". Isso mesmo, "o dia dos pães", tão grande era a quantidade de mães acompanhando seus filhos.

Ora, é claro que muitos pais deixam de ir porque ainda estão no trabalho ou por conta de outros compromissos, mas o que se percebe na verdade nisso tudo é a grande quantidade de pais separados e, conseqüentemente, de filhos que normalmente terminam ficando com a guarda das mães.

Isso, ao meu modo de ver - e vi alguns exemplos que prefiro não citar -, é muito constrangedor para as crianças. Algumas sempre ficam perguntando pelos pais daquelas que só têm mães, e percebemos no olhar e nos gestos que estas terminam constrangidas e não tendo explicações.

É bem verdade que isso não mata ninguém - e se matasse seria chacina -, mas também não custava nada as autoridades competentes acabarem com esse negócio de Dia dos Pais, se pouco tempo antes, no mês de maio, temos o Dia das Mães que podia muito bem ser transformado no "Dia dos Pais".

Se o pai e a mãe pudessem participar do evento, muito bem; se não, que participasse um ou outro, ficando tudo devidamente explicado. Afinal de contas, já faz parte até do nosso senso comum que pai e mãe são, juntos, nossos pais.

Insisto nisso porque, como sabemos, esse negócio de Dia dos Pais separado do Dia das Mães não é outra coisa senão pura matemática e desejo de lucro - e digo isso para não dizer invenção e ganância do comércio e dos nossos insaciáveis comerciantes.

Veja que não existe dia dos filhos e dia das filhas. O que existe é Dia das Crianças. O mesmo pode ser feito para os pais. Não deveríamos deixar o comércio agir a bel prazer e à revelia do bom senso social.

É certo que muitas crianças perdem o pai muito cedo, que essa história do trabalho está mais do lado masculino e que - porque não dizer -, a irresponsabilidade para essas tarefas envolve bem mais os homens que as mulheres, mas a maior incidência disso tudo está mesmo é na separação e no divórcio que já tomam conta do chamado mundo moderno e ainda vai tomar muito mais.

Acho até - brincadeira à parte -, que se a Justiça que sempre faz um tal de "casamento coletivo também inventasse de realizar "divórcio coletivo", teria de, no caso de João Pessoa, alugar espaços como o Almeidão, e, em casos de cidades como são Paulo, uns três ou quatro grandes estádios de futebol.

Mas deixemos isso de lado porque o que propomos é bem mais serio e mais singelo. Envolve o sentimento não de marmanjos, mas de crianças. Sentimento de crianças que, como se sabe, é sempre bem mais puro, mais ingênuo e, por natureza, completamente desprovido de malícia e até senso de humor.

É isso: As escolas, a igreja, o Ministério Público, sei lá quem é... precisam pensar um pouco nesse assunto. Sobretudo como escola, como igreja e como autoridades exorcizarem esse cinismo de rotina como se ele em nada significasse.

Se os tempos mudaram, se os tempos mudam, então a gente também precisa mudar. E, em nome disso, os CDLs da vida que arranjem outra forma de movimentar suas lojas vendo a prazo porque à vista o que teríamos de fazer mesmo era isso.

ademilsonjosé@jornalonorte.com.br
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