Também tenho os meus talismãs. Sobre o tampo da mesa de trabalho, no quarto do apartamento onde moro, um sapo e uma coruja em pedra-sabão dividem o retângulo de fórmica com um peixinho de madeira que nada estático entre topázios e ametistas. O peixe foi presente de aniversário de Margarete Almeida; as pedras me foram dadas por Machado Bitencourt, garimpadas em suas entradas e bandeiras pelos "lisos do suçuarão".
Nos dias de muito cansaço, quando as idéias teimam em brincar de esconde-esconde nas cavernas enigmáticas do cérebro, esqueço a tela fria do computador e passo a mirar as pedras. Gosto quando elas iluminam meus olhos com os reflexos do Sol, da Lua e das estrelas (que passeiam lá fora, espiando, por entre as grades, com suas faces reluzentes, os dramas e as comédias que se desenrolam, diariamente, sob os tetos escaldantes do nosso bloco de apartamentos).
De que veio retirou Machado essas pedras semipreciosas? Imagino-o garimpando o leito seco do rio que deságua no açude de Santa Luzia e picotando, com hipotéticas machadinhas, os lajedos brutos e inóspitos da cordilheira da Borborema. Também posso vê-lo sem a bateia e despojado da estranha indumentária dos alpinistas a barganhar, nos pés-de-serras, com solitários capiaus, sacos de pedras por belas fotografias ou, quem sabe, dois quilos de carne seca, com lambuja de quilo e meio de feijão.
Pelas pradarias sem pasto e cavalo do sertão acostumou-se a correr sem peias e cabrestos o vozeirão de Machado, como se fora o tropel das cavalarias de Altas Beiras que por aqui combatiam em nome de D. Sebastião. Seu suor, batendo no chão, fez chiar de prazer e agonia os solos sertanejos, que sorviam ávidos cada gota, imaginando-as tenros pingos das efêmeras chuvas de verão. Seguindo os rastros deixados no pó das estradas pelos pneus de sua Veraneio de cores desbotadas, palmi-lha-se todos os quadrantes da Paraíba: de João Pessoa a Cajazeiras, de Picuí a São José de Piranhas...
No embornal de Machado não se escondiam caças em extinção e muito menos, em sua enfieira, espécies aquáticas em época de reprodução. Trazia Machado, de suas andanças, paisagens com (ou sem) figuras; pessoas de posse ou simples retirantes; cavalhadas, quadrilhas e cabindas; olarias, locas e minas, enfim... o sertão!
Um galo sozinho não tece uma manhã:/Ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/E o lance a outro... (João Cabral de Melo Neto)
Engana-se, quem vislumbra, naquele gigante sorridente e insofismável, apenas a figura do sonhador errante a lutar, eternamente, cavaleiro andante que era, contra os moinhos de vento que trituram a seco os destinos de sua gente. Ardia na mente de Machado a consciência plena de sua função social. As obras de governo inacabadas ou superfaturadas; os elefantes brancos gerados no ventre do descaso dos poderes públicos; as guerras fratricidas; os genocídios consentidos; a impunidade endêmica; as chacinas sem culpabilidades; o assassinato de líderes populares e a poluição do ar e dos mananciais eram pautas constantes de seu dia-a-dia profissional.
Incorre em erro quem procura em Machado o ideal do homem perfeito - a obra pronta e acabada fruto do melhor dia de trabalho de deus nosso senhor! Tinha ele suas idiossincrasias em relação à produção jornalística contemporânea e, em função de seu modo todo especial de reagir às coisas, cometeu erros ao julgar um ou outro caráter e ao avaliar uma ou outra forma de desempenho profissional. Contra si, por exemplo, cometeu um dos pecados capitais ao varrer, qual furacão, as mesas fartas.
Historicamente os homens são julgados pelo número de boas ou más ações que praticaram ao longo de suas vidas. E, no cômputo geral, Machado era um homem bom. Um cara alegre. "Um meninão", na bela e honesta definição de João Lobo, seu grande amigo e colega de profissão. Impossível permanecer quieto e ausente quando Machado entrava nas redações de rádios, jornais e televisão. Um galanteio para a moça bonita e, para o foca, uma saudável provocação. Uma piada fora de hora sempre caía bem, em nome da descontração. Uma mão amiga para o necessitado, um conselho para o desavisado, uma aula para o mal-informado. Esse era Machado: obra imperfeita e inacabada, como deve ser todo homem são...
Mas eu enfrentarei o Sol divino,/o Olhar sagrado em que a Pantera arde./Saberei porque a teia do Destino/não houve quem cortasse ou desatasse... (Ariano Suassuna)
Agora o vejo, pura energia, correndo solto pelas amplidões. É vento que impulsiona as vagas do mar. E nuvem branca estampada no chitão azul do céu. É sombra de pau-d'arco. E o rosa estufa da flor de cardeiro. É burburinho de água nos seixos roliços. E assobio de canavial. É o pio metálico do gavião. E a mansidão de cabras e ovelhas. É canto de galo anunciando manhãs. E cheiro de terra molhada na promessa do milho e do feijão. É cio de cavalo alazão. E gado mugindo no curral. É compasso de coco. E verso ferino de um cego cantador. É aspiral de raio e estrondo de trovão. E esperança verde pousada no cinza do mourão.
Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. (Guimarães Rosa)