Jornal O Norte

João Pessoa, Sexta-Feira, 25 de Julho de 2008

Ricardo Anísio


Entre extremos

Nacionalismo, parcerias e a maneira como um artista ofende seu público se dele depende para o consumo de sua obra

Não sou xenófobo nem destes nacionalistas emburrados. Mas também não sou destes que se abestalham facilmente com um cosmopolitismo que só pende pro lado mais 'forte'. Li por estes dias meu caro amigo Carlos Aranha escrevendo em sua coluna defendendo que as expressões no idioma inglês sejam incorporadas ao nosso cotidiano. Tenho muito respeito e apreço pelo jornalista, compositor e pensador que é o Carlos, mas democraticamente me permito emitir opinião diferente.

Temos um dos dicionários mais ricos de que se tem notícia no mundo, e uma riqueza literária que não fica a dever nada aos países primeiromundistas entre os quais, claro, se situa o Estados Unidos, essa fábrica de fazer guerra, esse vampiro territorial que processa o racismo tão bem quanto pratica a belicosidade. Eu amo Bob Dylan e Janis Joiplin, mas isso não me leva a curvar a crista perante certas subserviências culturais e políticas que se nos são impostas pelo povo Ianque.

Por que falar inglês na terra de Augusto dos Anjos? Por que dar tanta bola ao rock na terra de Pixinguinha? Desde cedo aprendi em casa que não devemos ser xenófobos porque o globo todo é habitado por gentes como a nossa. Mas, cada povo tem sua identidade, cuja soma resulta em uma harmonia bonita. Pelo menos na teoria. Na prática nem sempre, porque a força da grana que destrói, faz prevalecer os maneirismos norte-americanos.

Sou contra a oficialização de expressões em inglês adicionadas ao nosso cotidiano. Antes de qualquer coisa temos de ensinar nossos compatriotas a falarem um mínimo que seja, do melhor português. Sou contra essa curvatura dos brasileiros perante o deslumbramento que nos impõe o consumismo e a mediocridade dos Estados Unidos quando se trata de ética mundial. Estou mais para Ariano Suassuna do que para Caetano Veloso. Sempre estive. E caso possamos pensar em expressões idiomáticas de outros povos, que tal nos aproximarmos mais da beleza da Mãe África? Não vejo nos Estados Unidos um país a ser seguido ou copiado. Pelo contrário, sempre que falo nos americanos nortistas, penso em guerra, em opressão, racismo e capitalismo mais que selvagem. Vamos falar nosso rico português e ensiná-lo aos brasileiros.

O Brasil ainda nem conhece o Brasil e nem o seu dicionário. Vivamos a nossa aldeia, claro, sem ignorarmos as aldeias à nossa volta. Mas preservemos o mínimo da nossa identidade.
Eu, compositor

A assessoria da cantora-compositora paulista Laura Finochiaro manteve contato comigo com o intuito de pautar matéria sobre o novo disco da excelente artista, "Lauras". Até aí tudo normal, tudo como dantes no quartel de Abrantes. Ocorre que ao passar a vista no repertório para conhecer as parcerias de Laura, que já compões com Tom Zé entre outros, eis que me deparo com trechos de um poema meu musicado pela artista. "Lave me Love", do meu primeiro livro, "Canção do Abismo" (Ed. Universitária).

Nem bem contenho a alegria e meu celular dispara. É Geraldo Azevedo que me avisa: "Estou quase terminando a melodia para 'Semente' e está ficando linda". O poema que Geraldo está musicando é do livro "Canção do Fogo". Agora fico a torcer que alguém se habilite a musicar alguns versos do "Canção do Caos", que Astier Basílio considera meu melhor livro.

Oswaldo, chato
Depois de fazer um belo show no sábado à noite no Teatro Paulo Pontes, reforçado pelo violão e pela guitarra slide do músico Alexandre Meu Rei, o compositor Oswaldo Montenegro deu um show de deselegância ao criticar, no palco, aqueles fãs que vão ao camarim em busca de autógrafos e de fotos em sua companhia. Claro que em todo lugar existem os chatos de galocha. Mas OM deve se lembrar de um detalhe: sem público, nada do pão nosso de seu cada dia. Um pouco de delicadeza não faz mal a ninguém.
A Academia?

Uma generosa e passional amiga me pergunta porquê eu ainda não comecei a almejar uma vaga na Academia Paraibana de Letras. Amigos são assim, confundem o amor com a razão. Tenho cinco livros publicados, um sobre música popular e quatro de poemas e, segundo ela, "com muito mais história e serviços prestados à cultura do estado". Bem, não nego que fico envaidecido, sobretudo porque a amiga não nenhuma leiga no assunto, mas a APL não me quer e nem eu a quero. A politicagem prevalece em suas eleições e a troca de favores me dá náuseas em seus pleitos. Não sei se um dia, com a alma envelhecida, a vaidade me faça pensar diferente.

ricardoanisio@jornalonorte.com.br
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