Muita gente já ouviu alguém desprezar um lugar dizendo: "é pior que Caixa-Prego". Quem fala assim certamente nunca esteve lá. Como o nome é depreciativo, associa-se Caixa-Prego a lonjura, miséria e outras somiticarias.
Só que Caixa-Prego não existe. O que existe é Cacha-Prego, pequena vila de pescadores localizada no município de Vera Cruz, localizado na ilha de Itaparica, na Bahia, - sempre lembrada por João Ubaldo Ribeiro, filho da terra. A pequena vila tem três ruas principais: uma à beira mar, outra central e outra próxima ao mangue, também conhecida como Rua do Porto, cheia de embarcações ancoradas e onde fica a famosa Praça do Pau Mole. Nela, os pescadores idosos se reúnem para jogar cartas ou dominó.
Quanto à explicação do berço da estranha expressão, respondo à leitora Clarice Joviano Casagrande, moradora no bairro de Padre Eustáquio, em Belo Horizonte, MG. A origem do nome da cidadezinha, prezada Clarice, tem a ver com a atividade de pesca.
Nas proximidades do vilarejo, durante marés baixas, formam-se piscinas rasas que aprisionam grandes cardumes do peixe-prego, tubarão da família Echinorhinidae. Os pescadores podem pescá-los - ou cachá-los com facilidade - na verdade, os pegam com as mãos, nem é preciso anzol.
Trata-se de uma aproximação do verbo catar, comum na região como cachar. As pessoas dizem: - Para onde você vai? - Vou para onde dá para cachar peixe-prego. O uso corrente transformou cachar-pregos em cacha-pregos, ou cacha-prego, daí a expressão popular que lembra localidade remota, talvez inalcançável. Exemplos: "pra lá de caixa-prego," "vai ser longe assim em caixa-prego". Há quem nem acredite que o lugar existe. Coisa parecida com a Tonga da Milonga do Kabuletê, mais uma singular criação de Vinícius de Moraes . . .
BAFÔMETRO - Hoje em moda no Brasil, este aparelho é o analisador
de hálito. Em linguagem popular, medidor do bafo. Na verdade, o terror
dos que dirigem bêbados e causam mortes provocadas pelo álcool,
condição que a maioria das pessoas sensatas obviamente condena:
como é possível conciliar a direção de um veículo
com o motorista em estado de embriaguez? O nome técnico do bafômetro
é etilômetro, equipamento que revela com precisão a quantidade
de álcool etílico no sangue por meio da análise do hálito,
o tal bafo do motorista. A palavra bafo, onomatopéia de baf, ruído
interlabial de escárnio, nos leva ao latim vulgar. Seja como for, o
equipamento tornou-se decisivo fator de aferição do estado de
embriaguez do indivíduo que, quando apanhado em flagrante, não
balbucia mais que grotescos hics, hics, hics . . .
PROCRASTINAR - A palavra, não muito usual, significa transferir para
outro dia, deixar para depois, adiar, remanchar. Procrastinação:
pro, à frente e crastinus, de amanhã. Logo, procrastinador (que
nome horrível!) é o sujeito que evita tarefas, que dribla compromissos
- e faz jus ao nome... - mas o berço da palavra é curiosíssimo.
Lembra Santo Expedito, considerado o santo das causas urgentes. Eis a história,
contada pelo estudioso Evaristo Eduardo de Miranda: Expedito, militar exigente
e apressado, comandava uma legião romana no final do século
3. Como muitos santos, tinha vida devassa. Diz a tradição que
quando de sua conversão ao Cristianismo, um corvo voou sobre ele crocitando
crás, crás, que, em latim, quer dizer amanhã. Diante
da tentação da pro-cras-tinação, Expedito teria
respondido imediatamente (ou expeditamente...): hodie!, hoje!. Nas imagens
do santo, conhecidas dos fiéis que obtêm favores urgentes, é
possível observar um corvo a seus pés emitindo simbolicamente
seu crás e o santo proclamando seu hodie. A devoção à
memória de Santo Expedito espalhou-se a ponto de ele ter hoje um exército
de devotos no Brasil e no mundo. Falar em procrastinar lembra Millôr
Fernandes à memória em mais um de seus antológicos e
marotos conselhos: "Não deixe para amanhã o que você
pode fazer depois de amanhã". . .