Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

Márcio Cotrim


Caixa-prego

Muita gente já ouviu alguém desprezar um lugar dizendo: "é pior que Caixa-Prego". Quem fala assim certamente nunca esteve lá. Como o nome é depreciativo, associa-se Caixa-Prego a lonjura, miséria e outras somiticarias.

Só que Caixa-Prego não existe. O que existe é Cacha-Prego, pequena vila de pescadores localizada no município de Vera Cruz, localizado na ilha de Itaparica, na Bahia, - sempre lembrada por João Ubaldo Ribeiro, filho da terra. A pequena vila tem três ruas principais: uma à beira mar, outra central e outra próxima ao mangue, também conhecida como Rua do Porto, cheia de embarcações ancoradas e onde fica a famosa Praça do Pau Mole. Nela, os pescadores idosos se reúnem para jogar cartas ou dominó.

Quanto à explicação do berço da estranha expressão, respondo à leitora Clarice Joviano Casagrande, moradora no bairro de Padre Eustáquio, em Belo Horizonte, MG. A origem do nome da cidadezinha, prezada Clarice, tem a ver com a atividade de pesca.

Nas proximidades do vilarejo, durante marés baixas, formam-se piscinas rasas que aprisionam grandes cardumes do peixe-prego, tubarão da família Echinorhinidae. Os pescadores podem pescá-los - ou cachá-los com facilidade - na verdade, os pegam com as mãos, nem é preciso anzol.

Trata-se de uma aproximação do verbo catar, comum na região como cachar. As pessoas dizem: - Para onde você vai? - Vou para onde dá para cachar peixe-prego. O uso corrente transformou cachar-pregos em cacha-pregos, ou cacha-prego, daí a expressão popular que lembra localidade remota, talvez inalcançável. Exemplos: "pra lá de caixa-prego," "vai ser longe assim em caixa-prego". Há quem nem acredite que o lugar existe. Coisa parecida com a Tonga da Milonga do Kabuletê, mais uma singular criação de Vinícius de Moraes . . .

BAFÔMETRO - Hoje em moda no Brasil, este aparelho é o analisador de hálito. Em linguagem popular, medidor do bafo. Na verdade, o terror dos que dirigem bêbados e causam mortes provocadas pelo álcool, condição que a maioria das pessoas sensatas obviamente condena: como é possível conciliar a direção de um veículo com o motorista em estado de embriaguez? O nome técnico do bafômetro é etilômetro, equipamento que revela com precisão a quantidade de álcool etílico no sangue por meio da análise do hálito, o tal bafo do motorista. A palavra bafo, onomatopéia de baf, ruído interlabial de escárnio, nos leva ao latim vulgar. Seja como for, o equipamento tornou-se decisivo fator de aferição do estado de embriaguez do indivíduo que, quando apanhado em flagrante, não balbucia mais que grotescos hics, hics, hics . . .

PROCRASTINAR - A palavra, não muito usual, significa transferir para outro dia, deixar para depois, adiar, remanchar. Procrastinação: pro, à frente e crastinus, de amanhã. Logo, procrastinador (que nome horrível!) é o sujeito que evita tarefas, que dribla compromissos - e faz jus ao nome... - mas o berço da palavra é curiosíssimo. Lembra Santo Expedito, considerado o santo das causas urgentes. Eis a história, contada pelo estudioso Evaristo Eduardo de Miranda: Expedito, militar exigente e apressado, comandava uma legião romana no final do século 3. Como muitos santos, tinha vida devassa. Diz a tradição que quando de sua conversão ao Cristianismo, um corvo voou sobre ele crocitando crás, crás, que, em latim, quer dizer amanhã. Diante da tentação da pro-cras-tinação, Expedito teria respondido imediatamente (ou expeditamente...): hodie!, hoje!. Nas imagens do santo, conhecidas dos fiéis que obtêm favores urgentes, é possível observar um corvo a seus pés emitindo simbolicamente seu crás e o santo proclamando seu hodie. A devoção à memória de Santo Expedito espalhou-se a ponto de ele ter hoje um exército de devotos no Brasil e no mundo. Falar em procrastinar lembra Millôr Fernandes à memória em mais um de seus antológicos e marotos conselhos: "Não deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã". . .

marcio.cotrim@correioweb.com.br
início
Desenvolvido por O Norte Online