Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

João Batista de Brito


Arthur O´Connell

Cronista prossegue com série sobre coadjuvantes no cinema clássico

Fazendo o habitual zapping na televisão, caí, outro dia, num filmezinho tolo sobre uma família ambulante que decide improvisar uma casa numa praia ensolarada da Flórida. A estrela era Elvis Presley, mas não foi por ele que me detive na fita, e sim, pelo ator que fazia o seu pai na estória, o grande Arthur O´Connell, de que não tinha notícia havia muito tempo. E vi "Em cada sonho um amor" (Gordon Douglas, 1962) por inteiro, só para lembrar esse coadjuvante de que tanto gosto, um dos meus favoritos, que agora incluo nesta série.

Arthur O´Connell fez poucos filmes, mas, para gostar dele, não preciso de muitos. Bastam seus desempenhos em três dos anos cinqüenta, a saber, "Férias de amor" ("Picnic, 1955), "Nunca fui santa" ("Bus stop", 1956) e "Anatomia de um crime" ("Anatomy of a murder", 1959).

No primeiro - vocês lembram, não é? - ele fazia um noivo relutante em deixar o conforto da vida de solteiro para desposar essa dominadora professorinha, que era a Rosalind Russell. Na verdade, O´Connell e Russell representavam o casal desencantado, em contraste franco com o encanto entre William Holden e Kim Novak, e a gente não sabia o que era mais cativante no filme de Joshua Logan, se realismo ou romantismo, provavelmente as duas coisas misturadas. Pela atuação neste filme, O´Connell recebeu indicação ao Oscar.

No segundo, ele era o companheiro mais velho desse cowboy que decide deixar o rancho onde os dois residem para ir caçar uma esposa na cidade. Espécie de "Brokeback Mountain" dos inocentes anos 50, o filme tinha umas insinuações homossexuais, imperceptíveis na época, mas, com ou sem elas, era uma deliciosa comédia, também de autoria de Logan.

No terceiro, mais sombrio, O´Connell era um velho advogado decadente, entregue ao alcoolismo, que, entre mil problemas, servia de orientador profissional a James Stewart em um caso criminal bastante complicado. Pela participação neste "drama de tribunal" de Otto Preminger, O´Connell teve mais uma indicação ao Oscar, prêmio que, injustamente, nunca recebeu.

No cinema, a gente só lembra Arthur O´Connell (1908-1982) já maduro, mas, ele começou sua carreira de ator de teatro logo cedo, atuando em vaudevilles e outros palcos menos prestigiados por muito tempo, até finalmente entrar, lá pelo final dos anos 30, na Companhia Dramática de Orson Welles, a Mercury Theatre.

Tanto é assim que a sua primeira aparição na tela aconteceu em 1941, justamente no primeiro filme que Welles dirigiu, o afamado "Cidadão Kane". Sim, se você prestar bem atenção, vai divisar, na cena final, um jovem e irreconhecível O´Connell entre os jornalistas interessados no mistério do "rosebud".

Mas isto foi só uma ponta e O´Connell - em que pesasse ao seu sucesso nos palcos novaiorquinos - teria que esperar muito para conseguir papéis com um pouco mais de destaque no cinema. Nos palcos da Broadway desempenhou, por muito tempo, o Howard de "Picnic" e quando a equipe de Logan, a convite de Hollywood, resolveu filmar a peça, foi escolhido para repetir a dose diante das câmeras, isso em 1955, ou seja, aos 47 anos de idade.

Sempre na condição de coadjuvante, outros filmes que lembro com ele, são: o melodrama familiar "O homem do terno cinzento" (Nunnally Johnson, 1956), o western "O homem do Oeste" (Anthony Mann, 1956), a comédia marítima "Anáguas a bordo" (Blake Edwards, 1959), a fantasia circense "As sete faces do Dr Lao" (George Pal) e a comédia automobilística "A corrida do século" (Blake Edwards, 1965).
Acho que a última vez que o vi na tela grande foi em 1972, ao lado de Shelley Winters e Gene Hackman, como o capelão do navio que naufraga em "O destino do Poseidon", de Ronald Neame, infelizmente, nem um grande papel, nem um grande filme.

Por isso, prefiro recordá-lo como o vulnerável e, em seus defeitos, profundamente humano Howard de "Picnic", irônico e delicioso emblema eterno do desencanto inerente a todo encanto amoroso.

joãobatistade brito@jornalonorte.com.br
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