Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 20 de Novembro de 2008

Ipojuca Pontes


Notas do Subterrâneo II

Nada irritou mais Dostoievski, durante toda vida, do que este pré-materialismo histórico associado à doutrina utilitarista do "egoísmo racional", expostos por Tchernichevski e seus personagens em "Que Fazer?"

Na sua amargura existencial, Dostoievski tinha se tornado, ironicamente, o próprio homem do subsolo. Além do mais, com a súbita morte do irmão Mikhail, ele ficara praticamente só nas mãos de um editor inescrupuloso que lhe queria tomar, por meio de contratos lesivos, os direitos autorais de suas obras, entre as quais se sobressaía "Recordações da Casa dos Mortos".

Na verdade, desde que rompera de forma irreversível com o pensamento socialista "ocidentalizante", descartando as idéias conspiratórias fermentadas quando ainda integrava o círculo revolucionário Petrachevski, o escritor passara a evitar, ou quando não combater abertamente, figuras notáveis da "intelligentsia" russa, entre elas o crítico literário "engajado" Vissarion Bielinski, "O Mau"; o aristocrata Alexander Herzen, tido como o pai do populismo russo, e o consagrado escritor Ivan Turgueniev, autor do romance "Pais e Filhos", que cunhou a expressão "niilismo", doutrina segundo a qual não há verdade moral nem hierarquia de valores.

Mas a especial atenção de Dostoievski voltou-se, em meio à adversidade geral, para um membro da intelligentsia russa não menos atuante, o ex-seminarista ateu e conspirador, Nikolai Tchernichevski, autor do romance didático "Que Fazer? - Narrativas sobre os Novos Homens", lançado em 1863 - que se tornou mais tarde o livro de cabeceira de Lênin e que determinou a adesão dele ao movimento revolucionário, levando-o a escrever também o seu próprio "Que Fazer?" - a bíblia do movimento bolchevista no início do século 20.

Tchernichevski, por sua vez, para escrever o seu "Que Fazer?", ficara fortemente impregnado pela "Teoria dos Quatro Movimentos e dos Destinos Gerais", obra do socialista utópico francês Charles Fourier que pregava, pelo uso da razão, a construção de uma sociedade modelar justa e livre. No seu livro fantasioso, Fourier tratava com riqueza de detalhes da criação do que chamou de "Falanstério", uma nova ordem societária em que homens e mulheres produziriam harmoniosamente na base da comunhão de bens, e dentro da qual a divisão da riqueza estaria subordinada à quantidade e à qualidade do trabalho de cada um.

Na visão de Fourier, o objetivo principal dos falanstérios seria estimular a proliferação do "casal progressivo", entendendo-se por essa prática a relação amorosa livre do "vínculo conjugal fixo", uma forma de contestação ao "sistema opressivo dos amores" vigente na sociedade patriarcal. Daí surgiria, forçosamente, segundo Fourier, um "homem novo e livre".

Impregnado desta utopia benigna, e partindo de princípios estabelecidos pelo pensador inglês da era vitoriana, Jeremy Bentham, segundo os quais o critério supremo da moralidade seria a "utilidade", destacando nela o papel da figura do "egoísta racional", Tchernichevski escreveu o seu "Que Fazer?", uma obra duplamente codificada: em primeiro lugar, numa vertente determinista, o romance deixa entrever, em plano metafórico, a necessidade de introduzir a "civilização européia" na Rússia autocrática e, posteriormente, incorporar o Estado revolucionário à causa popular russa.

Na sua segunda vertente, romanesca, "Que Fazer?", acionando três personagens básicos, dá conta de uma intriga aparentemente simples: por meio de um casamento "emancipado" com Lupokov, um egoísta racional candidato a "Novo Homem", a estudante Vera liberta-se da tirania familiar e passa a viver uma espécie de Falanstério russo, local onde se constrói uma nova engenharia de relacionamento humano livre de todos os preconceitos. Neste ambiente utópico, onde só habitam "novos homens", a mulher conhece Kirsanov, amigo de Lupokov, em quem descobre o verdadeiro amor.

No embalo da narrativa, Lupokov, já livre do "vínculo conjugal fixo", do "sistema opressivo de amores" da sociedade patriarcal condenada por Fourier, abre o espaço do seu "casamento progressivo" para o amigo Kirsanov e deixa a cena simulando suicídio. Para consolidar a nova situação, e convencer a mulher a viver com Kirsanov, o marido emancipado pede o apoio de Rakmétov, um "Homem Especial" que, segundo diz, por ser dono de uma vontade férrea, está acima dos "homens novos" - sendo considerado, por isso, na ordem societária modelar em estado de fermentação, como o arquétipo do revolucionário profissional. Um futuro Lênin, por assim dizer.

Rakmétov, o Homem Especial, no seu proselitismo revolucionário e determinista, explica a Vera que, na nova ordem social, "nada é superior à mulher, nada é superior ao homem". A questão da liberdade, para ele, está resolvida, pois a idéia do livre-arbítrio, da manifestação do direito de escolha e da livre vontade não tem validade concreta, e tudo não passa da interpretação equivocada de "um processo rigorosamente casual".

Para Tchernicheviski, simplesmente não existe o livre-arbítrio como senso moral que confere ao indivíduo a sua dignidade humana. Para ele, o conceito de "vontade, ou querer, é a impressão subjetiva que acompanha, em nossas mentes, o nascimento de pensamentos e atos a partir de pensamento e atos anteriores ou externos".

O último capítulo do romance de Tchernichevski finda com a indagação do título, mas depreende-se de sua leitura que, para se chegar à "felicidade total", o homem terá de compreender que o mundo é regido pelo princípio do prazer, considerado como o bem, e da dor, compreendida como mal. Na nova ordem pretendida por Tchernichevski, a moral deve buscar a utilidade, ou seja, aquilo que produz o bem dos indivíduos ou, pelo menos, evita a dor.

Pela boca de Rahmétov, Tchernichevski assegura que o homem busca principalmente o que dá prazer e satisfação ao seu próprio interesse egoísta. Mas como os homens são também criaturas racionais, acabam aprendendo, pela educação, que a "utilidade" mais duradoura consiste em identificar seus desejos pessoais para o bem-estar da maioria dos seus semelhantes.

Na sua armação literária, para mover a nova sociedade, Tchernichevski, antes de tudo um conspirador revolucionário, realça o papel do "homem novo", desenhado como o típico "homem de ação", mas destaca a singularidade do "homem especial", insubstituível na organização da nova sociedade - um homem que, segundo dá a entender, tudo pode e para quem, sem nenhum conflito moral, "os fins justificam os meios".

Nada irritou mais Dostoievski, durante toda vida, do que este pré-materialismo histórico associado à doutrina utilitarista do "egoísmo racional", expostos por Tchernichevski e seus personagens em "Que Fazer?". E Dostoievski explicou a razão: nos tempos em que conviveu no cativeiro com os degredados na Sibéria, ele tinha testemunhado justamente o contrário, ou seja, que os presos não abriam mão do livre-arbítrio, da liberdade de contrariar as regras drásticas, ainda que a manifestação da própria vontade - por exemplo, beber vodca contrabandeada - significasse enfrentar os mais duros castigos físicos.

A resposta de Dostoievski ao pensamento materialista e revolucionário de Tchernichevski expresso em "Que Fazer?", bem como às idéias "europeizantes" alavancadas pela intelligentsia russa, vieram à tona, no inverno de 1864, em "Memórias do Subsolo", novela que marca uma densa e criativa etapa na vida e obra do escritor.

Numa carta destinada ao irmão Mikhail antes de ele morrer, Dostoievski lança luzes sobre o seu novo projeto literário. Informa ele: "Lembra que lhe falei de uma "confissão" - um romance que eu queria escrever depois de tudo que tive de suportar? Dias atrás tomei a confissão de escrevê-lo imediatamente. A idéia fundiu-se com o elemento passional de que lhe falei. Será, em primeiro lugar, surpreendente, apaixonado e, em segundo lugar, jogarei nesse romance todo o meu coração, todo o sangue do meu corpo. Imaginei-o deitado na minha cama, em momentos dolorosos de tristeza e autocrítica... Vai ser uma obra mais forte do que "Pobre Gente" - e como! Garanto a você que esta "confissão" consolidará definitivamente meu nome".

Ipojuca Pontes, Escritor e Cineasta
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