Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

Gonzaga Rodrigues


O resto do país

No "Roda viva"-TV Cultura desta segunda-feira o entrevistado foi o jornalista e professor Caio Túlio Costa, antigo ombudsman da "Folha". A roda de entrevistadores, como sempre, de São Paulo ou com algum representante solitário do Rio, mediados pela apresentadora Lilia Witte Fibe.

O assunto é imprensa. E como levei a vida com os olhos e a atenção pregados no cânon estabelecido pelas matrizes do Rio e de São Paulo, não me vem outra reação a não ser a de saber o que é bom ou ruim, no ramo, ditado pelos eternos donos da verdade brasileira.

Foi assim na iniciação, o be-a-bá nas redações locais, no vivendo e aprendendo, mas o padrão de qualidade ditado pela metrópole cultural, nesse tempo o Rio. Fazíamos o "realizou-se ontem" conforme a prática da casa, geralmente a da ordem cronológica com começo, meio e fim, até que descobríamos, com os olhos no jornal do Rio, que não passávamos de um anacronismo. Precisávamos assimilar o modelo dinâmico dos novos tempos, suprimir velhos termos e costumes, adequar a notícia da província à pressa do leitor da grande metrópole. Reduzir o essencial a duas ou três frases, respondendo assim às questões fundamentais do jornalismo moderno.

Sem escola no interior , era o jornal de fora que nos ensinava. O Jornal do Brasil assumindo a cátedra geral com os seus disputadíssimos cadernos de Jornalismo, depois de Comunicação, fazendo as vezes de escola na difusão de técnicas, de orientação bibliográfica e de ética.

Depois veio a reforma da Folha, a do Estadão, circunscritas ao seu próprio feitio, sem o altruísmo pedagógico do JB, com quem a imprensa moderna do resto do país guarda enterrada uma dívida histórica.
"Resto do pais", saiu sem querer. E ficou assim, como tudo mais, o resto do país que D. João VI inventou há exatos duzentos anos. Preservou a integridade territorial, a homogeneidade lingüística, mas concentrou na corte o monopólio da inteligência e da cultura brasileiras. Viciou os metropolitanos a ver o resto sem tirar os olhos do próprio umbigo. Sem se tocar que existe um outro país além do eixo-Rio-São Paulo.

É o que passou na minha cabeça ao ver a roda de entrevistadores e entrevistado no programa da TV Cultura, formado apenas de colonizadores desses dois centros econômicos e culturais. São 26 estados, mais um distrito federal, onde militam milhares e milhares de jornalistas, alguns de tradição secular, mas a lição ou o cânon só vem das matrizes centrais. O resto não tem o que ensinar, só tem o que aprender. Será isso mesmo, dr. Neumanne?

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