Volto a fazer menção a depoimento de Odilon Ribeiro Coutinho dado em momento da 3ª Funart, em 1996, quando se pensava em fundar e fazer funcionar o Centro de Estudos José Simeão Leal, derivado da Fundação Mario Pedrosa, duas iniciativas que não prosperaram. Veio da família, no Rio, uma biblioteca inteira para isso, todo um acervo.
Simeão é um paraibano a quem a literatura e as artes plásticas do Brasil ficaram devendo mais de uma centena de publicações e de promoções ainda hoje não repetidas por governo ou iniciativa privada, quarenta anos depois de cessada a sua atuação no antigo setor cultural do MEC. Até então e depois dele, ninguém conseguiu reunir maior e mais prestigiado elenco de escritores e ensaístas a serviço da divulgação cultural do país. Sua sala do MEC era um lugar de notoriedades, escritores que só chegavam para gente como sob a aura de mito e que íamos surpreendê-los banalizados pela informalidade no convívio de Simeão.
Muniz Sodré, professor de Comunicação do Rio, que veio trazer naquele encontro o seu depoimento, deu primeiro esse recado de Márcio Tavares, genbte de Eudardo Portela encarregada de tocar a Secretaria de Assuntos Culturais do MEC: "Lá encontrei um monumento cultural que, décadas de incúria na área não conseguiram abalar nem fazer esquecer: os Cadernos de Cultura editados por Simeão Leal". E Sodré, reiterando: "Reuniu e deu à luz pública o que de melhor havia na cultura brasileira/ Era um espírito cosmopolita que fez traduzir pela primeira vez no Brasil poetas e escritores , abrindo influência de grandes correntes intelectuais do mundo".
Nas artes o seu papel não foi menor. Pena que a Paraíba de
um modo geral não alcance a verdadeira dimensão de um Tomaz
Santa Rosa, paraibano que teve em Semeão sua alma gêmea. Odilon
é quem conta, senhor dessas afinidades: "Santa Rosa foi um dos
amigos mais íntimos,um dos assessores de Semeão. Foi levado
por Semeão à Índia e lá encontrou a morte, que
o amigo assistiu".
Como é triste vermos os salões da Paraíba, os novos e
os recem-construídos, absolutamente vazios da memória de quem
tanto elevou o espírito da terra!
Voltemos a Odilon Ribeiro, testemunha de tudo isso: "Ele fez cenários para Mozart, a Traviata de Verdi, Carmen de Bizé, sem falar no teatro inovador de Nelson Rodrigues; teve um papel importantíssimo no trabalho de articulação cultural protagonizado por Simeão.
Protagonizado mas não ostentado. "Simeão nunca subiu
ao palco, sempre ficou na sombra, como eminência parda, incentivando,
articulando, criando coisas, inventando, convidando, chamando artistas e escritores
e dando a eles a oportunidade que não teriam se ele não ocupasse
um papel de uma importância tão decisiva".
Lembrá-los é o mínimo que podemos fazer.