O meu amigo Antônio David, fotógrafo da melhor qualidade e pé de ouro em algumas das mais movimentadas serestas dançantes da cidade, costuma reclamar comigo porque, nos meus artigos, acabo falando sempre no meu Rio Tinto.
Mas o que posso fazer, David, se assim como a de Tostoy, nossas aldeias são sempre universais demais. E digo isso porque, agora mesmo, nesse episódio da prisão do banqueiro, tenho me lembrado muito um caso que muito marcou os meus verdes anos de interior.
Vou explicar melhor: Na infância-adolescência, conheci um tocador de cavaquinho chamado Zé Pontes que, no seu relacionamento com a polícia local, ele era muito parecido com esse tal de Daniel Dantas, o banqueiro que, na semana passada, levou boas horas à base do "teje preso e teje solto" com a Justiça e a Polícia Federal.
É que Zé Pontes às vezes exagerava no conhaque de alcatrão São João da Barra e se tornava muito arengueiro e provocador. Resultado, sempre acabava preso.
Mas isso era coisa que não lhe preocupava, até porque quem costumava prende-lo eram somente aqueles delegados, cabos ou soldados novatos na cidade, policiais que não conheciam o potencial de Zé Pontes.
Aposentado, boa pinta, educado e chefe de uma grande família que representava muitos votos, Zé Pontes era sempre protegido por qualquer prefeito que estivesse de plantão na cidade, o que lhe levou a criar uma frase que sempre dizia aos delegados, cabos e soldados quando recebia voz de prisão.
- Forte não é quem prende; forte é quem solta! - filosofava ele. E o resultado era sempre esse mesmo: Uma ou duas horas depois, o prefeito, um deputado ou algum pau mandado destes batia na delegacia para devolver a liberdade ao ilustre tocador de cavaquinho da cidade.
É disso, sinceramente, dessas coisas de Rio Tinto, que tenho andado me lembrando muito desde o dia que a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal travaram àquela peleja de "prende e solta" ou "solta e agarra" com o banqueiro.
Acho que, metido a falante do jeito que era, se Zé Pontes fosse vivo, fosse Daniel Dantas e vivesse nos apartamentos de cobertura de São Paulo, teria botado o cavaquinho debaixo do braço e dito o seguinte ao delegado da PF, Protógenes Queiroz:
- Olha aqui, rapaz: O senhor pode ser federal, pode ser grego, mas saiba que forte não é quem prende; forte é quem solta!
Pois é, meu amigo David, a gente anda e viaja muito - eu mesmo já bati quase esse país inteiro -, entra na Internet, sai na televisão, atravessa celular e desemboca nos rádios da vida, mas não consegue sair da aldeia da gente, não. É fogo, rapaz! É fogo!!!
E o pior, sabe David? o pior é que, quanto mais a gente se afasta da aldeia e vê sofisticação ou coisas tidas e havidas como sofisticadas, mais a gente vê a moral deteriorada. Quer um exemplo? Quer mesmo? Então lá vai:
Lá na aldeia, o prefeito desmoralizava o delegado e ficava por isso mesmo. Todo mundo sabia e boatava. "Manda quem pode e obedece quem tem juízo", comentava Seu Vital, o dono da bodega, naturalmente que na defesa do seu cliente musical.
E dizia mais. Argumentava que a principal instituição do mundo é o homem e que Zé Pontes, apesar dos pesares, estava acima de uma ou duas doses de conhaque. Para Seu Vital, seus clientes sempre tinham história e, se às vezes erravam, nunca era com essas coisas de roubar e nem muito menos de afetar a moral de ninguém.
Não é o que acontece nas metrópoles. Por aqui os caras que têm ou que acham que têm algum poder só erram subtraindo dinheiro público e/ou desmoralizando delegados. E o que é pior: Com um floreio de frases tão grande na mídia que se parecem com estadistas democratas e bonzinhos.
Mas o danado é que o mais complicado dessa história toda não está mais em tela. Passou. Ficou pra trás. Foi quando o repórter César Tralli (Globo) disse que um dos assessores do banqueiro teria dito que o objetivo do seu chefe era tirar o caso da Justiça Comum para levá-lo para o STJ e o Supremo, onde seria melhor de administrar.
Ora, eu não sei não, viu? Acho que ao invés de polêmica besta sobre proibir ou não proibir algemas em banqueiros, de manter ou de tirar delegado, a imprensa e os próprios super Tribunais deveriam estar preocupados era com isso. Com esse negócio de, na Justiça, algum caso ser levado mais pra cima ou mais pra baixo.
Isso foi o que nos pareceu mais sério. Não sei por que pararam ou passaram a falar tão pouco disso. Tenho percebido que o nosso problema não é só o desvio de verba, não. É, também, ou sobretudo, o desvio de verbo.