Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

William Costa


Versos em púrpura

Poesia das coisas simples. Da doce revolta contra as ciladas do tempo e as armadilhas do amor. Assim é “Fúcsia”.

Dizem por aí que jornalista não deve se meter com coisas subjetivas demais, pois o leitor (consumidor) que compra jornal merece respeito, quer saber dos fatos da realidade concreta, do acontecido, e não das sensações que a vida imprime na alma sensível do redator. Taí uma coisa que me deixa macambúzio. Acho que, no tempo bicudo em que está vivendo, nosso leitor anda a necessitar menos de fatos que de afetos.

Acho que as imagens e sensações que certos textos “subjetivos” provocam no leitor são tão legítimas - enquanto "produtos" postos à venda - quanto a notícia da última falcatrua do Palácio do Planalto. Extrair memórias dos prédios velhos da cidade, por exemplo, como faz Gonzaga Rodrigues, é um fazer jornalístico ainda não tipificado pelas escolas de comunicação. Mas será um dia, isto eu garanto.

O mesmo raciocínio aplica-se à crítica literária. Bem sei que existe toda uma "jurisprudência" formada sobre o assunto nas universidades, e até fora delas, mas nem por isso se deve recuar e deixar de buscar o sentido das palavras através das marcas que elas deixam na alma. Imagine se cada poeta construísse os seus poemas colocando em cada verso tudo aquilo que nele "vêem" os estudiosos, após a publicação em livros.

Pois bem. Como falar de um livro como "Fúcsia", de Vitória Lima, sem descambar para essa espécie de torpor que certos versos provocam n'alma, e tentar explicar ou dividir isso com o leitor? Existem, claro, mil e uma maneiras de abordá-lo, mas prefiro vê-lo como uma flor de jambeiro, em dia de chuva, flutuando na linha d'água do meio-fio, percorrendo a cidade como minúscula caravela.

a beleza desta manhã de novembro
atlanticamente
me inunda
com seus verdes,
amarelos,
azuis. (Manhã de novembro)

Seus poemas têm a natureza complexa de todos os poemas. São leves, às vezes; noutras, são densos, largos e profundos como mares. Trazem dentro de si tempestades, cujos ventos, bravios, libertam-se, pelo olho, da calmaria das páginas, e batem janelas e portas, provocando calafrios. Chegam, também, como brisas, suaves, prenhes dos aromas de antigas manhãs, parindo saudades.

da paleta dos jambeiros
sai o fúcsia que
pinta & borda
as calçadas dos setembros. (Fúcsia)

Seus poemas têm a misteriosa natureza da mulher. Ora são límpidos cristais (vidro superior), nos quais ricocheteam as flechas do sol do meio-dia. Ora são obscuras rochas vulcânicas, fumegantes, ainda. Ali, a Lua Cheia não encontra espelho para admirar seus cachos dourados, e os grandes lagartos, lentos e cansados, não podem repousar. Sua alma não é mineral, apenas; tem lá um quê de pássaro...

Seus poemas nos chegam como cartas simples, anunciadas, aos gritos, no portão, pelo carteiro de roupas coloridas. Trazem notícias de terras distantes, do bairro da infância, de amigos ausentes, relatos de parentes. Falam de paixões novas, de amores perdidos, de desejos secretos, jamais saciados. Fazem verter lágrimas, pois haviam fatos lúgubres escondidos dentro dos envelopes.

São álbuns de família, os seus poemas. Retratos de pai, mãe, irmãos... Alguns bem vívidos, resistentes ao tempo. Outros desbotados, de imagens difusas, quase pedindo para serem esquecidos. É bom conhecê-los assim, pelo viés da poesia. Acabam por se tornarem parentes nossos, também. Sem o atrito real da hipocrisia, são humanos, demasiado humanos, e nos cobram a virtude máxima da compaixão.

Gosto da vida cotidiana que transcorre nas veias dos seus poemas. Coisas comuns, como regar as plantas, cheirar as flores, saborear as frutas do quintal, destampar caçarolas para provar comida, chamar para o almoço, vasculhar gavetas, ralhar com os garotos, fuçar as estantes, arrumar as roupas, limpar os sapatos, consertar a mobília, mirar-se no espelho, tirar cabelo branco com pinça, enfim...

São também quase hai-kais alguns de seus poemas. Fotografam instantes na tentativa de captar essências. O tempo no corpo e a memória do tempo. O sentimento inexplicável que somente germina na idade das coisas sem nome. Pio de coruja. Vôo de morcego. O baque surdo da manga sobre as folhas secas do quintal. A lua na janela alumiando o corpo adormecido.

A vida & a morte
habitam casas contíguas. (A vida & A morte)

williamcosta@jornalonorte.com.br
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