Roubaram o nariz de Manoel de Lima, o poeta Caixa D'Água. Um vândalo, desses que passeiam à noite pelas nossas praças, deve tê-lo arrancado com uma pedra. Fico me perguntando para que serve a pequena ponta de um nariz de pedra, feito de areia e cimento? Com certeza não serve para nada, alguém fez isso pelo puro deleite de destruir patrimônios.
Caixa D'Água ficou ainda menor do que a sua pequeníssima estátua. Por mais baixinho que tenha sido o poeta, nunca me convenceu a estatura da pedra. Quando o prefeito recuperou a Praça Aristides Lobo, teve a idéia dessa homenagem e encomendou a estátua. Aplaudi o gesto, alguém lembrava de um poeta de morte recente, perpetuando a sua memória num lugar estratégico do Centro.
O gesto foi ainda maior por se tratar de um poeta marginalizado, desses que são vistos de forma atravessada, conhecidos por todos os contemporâneos e, ao mesmo tempo, relegados ao desprezo, vestidos de muito folclore e lendas depreciativas. Mas Caixa D'Água, independente do seu mérito intelectual e político, era a própria poesia ambulante nas ruas e becos do centro histórico.
Presente em todos os eventos, era raro um lançamento de livro em que não improvisasse discurso. Eu mesmo tive o privilégio da sua presença. Quando publiquei, em 98, o meu romance "Dom Quizales de Condor", Caixa D'Água foi ao microfone. O inusitado do seu discurso, de grande irreverência, foi o fato de ele ter saudado a presença de um parlamentar, e não o autor do livro. Naquela ocasião, eu prestava assessoria ao então deputado estadual Tião Gomes, que tinha ido ao lançamento, e Caixa D'Água começou assim:
E assim continuou até ao final. Esse era Caixa D'Água, era esse o personagem cuja presença sã vinha alegrar os nossos eventos. Entre alguns autores, já era comum se dizer:
- Meu lançamento foi bom, teve discurso de Caixa D'Água.
Pouco tempo após sua morte, o prefeito mandou fazer a estátua e colocou-a exatamente na praça que ele freqüentava. Nada mais apropriado, foi uma forma de manter o nosso poeta no seu lugar. As feições da estátua são perfeitas, mas deve ter havido um excesso de pressa e ela se saiu pequena demais, sem perspectiva, ficou desproporcional na imensidão da paisagem. Não digo que o artista deva refazê-la, mas talvez a solução seja colocá-la num pedestal que lhe garanta um maior destaque.
Caixa D'Água está com seus sapatos no próprio piso, rente ao chão, e não há um único cerco que lhe proteja dos vândalos. Eu digo o mesmo sobre Augusto dos Anjos naquela praça vizinha, a Pedro Américo, em frente ao Theatro Santa Roza. Outro dia roubaram a placa que traz o belíssimo poema "Debaixo do Tamarindo". Não acho que tenham roubado o poema. Os que amam a poesia no fariam isso. Com certeza levaram para o ferro-velho, uma chapa daquelas pode ser vendida a 1 ou 2 Reais.
O mais curioso é que Augusto dos Anjos está ao lado do quartel de polícia. Nenhum policial presenciou o vandalismo. Se viu, fez vista grossa. Numa outra ocasião, olhando a estátua d o hall do Teatro, percebi duas sombras escuras no rosto do poeta. Curioso, me conduzi ao local e retirei um velho óculos ray-ban que tinham posto em seu rosto. Ficou até engraçadinho, eu também ri, mas Augusto não está ali para números circenses.
Agora arrancaram o nariz de Caixa. O pobrezinho está com a cara achatada. E o apelo que faço ao município é pela proteção dessas obras de arte. Se não colocarem a Guarda, que ao menos sejam postas em posições elevadas, como sempre fizeram com os bustos de personalidades políticas.
O intrigante é exatamente isso: os vândalos não mexem com os políticos de pedra. Por que somente os poetas são ridicularizados?