Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

Show


Uma lenda musical

Leonardo Bonfim fala com exclusividade sobre o vídeo que ele e Cristiano Bastos estão realizando sobre "Paêbiru", disco antológico de Zé Ramalho e Lula Côrtes

Ricardo Anísio
ricardoanisio@jornalonorte.com.br

Os jornalistas Cristiano Bastos e Leonardo Bonfim estão trabalhando em um documentário que tem como ponto de partida o célebre álbum duplo "Paêbiru", de Zé Ramalho e Lula Cortes, lançado ainda no tempo dos discos de vinil. Esse projeto batizado temporariamente apenas de "Paêbirú" está sendo filmado em quatro cidades brasileiras. Lançado em 1974 o disco suscitou várias lendas, inclusive uma de que Zé Ramalho teria achado ruim que sua foto, na reedição que se pretendia fazer do disco, aparecesse em segundo plano, já que a capa dupla, depois de dobrada apresentaria apenas Lula na parte frontal. Á época os produtores alegavam que Zé Ramalho em destaque teria tonado o disco mais comercial. Os jornalistas Cristiano Bastos e Leonardo Bonfim que estão na direção do projeto preferem não se envolver nessas querelas.

Em 1974, Lula Cortes e Zé Ramalho viajaram para a cidade de Ingá, interior da Paraíba, para ver de perto as inscrições míticas que segundo a lenda teriam sido feitas por seres extra-terrestres ou pelos incas, que ali teriam passado. Outra versão dá conta de que teriam sido seres da pré-história que cunharam mensagens nas Itacoatiaras. Foi justamente a ida de Zé e Lula às Pedras do Ingá que os inspirou a fazer o disco "Paêbiru". O álbum teve a maioria de suas cópias levadas na enchente que atingiu o Recife, em 1975. Teriam restado cerca de 300 cópias, disputadas por colecionadores e fãs, que pagaram até R$ 4 mil por um exemplar. Leandro Bonfim concedeu entrevista exclusiva ao caderno Show na qual fala sobre o que já foi filmado até agora e diz que tem procurado manter contato com Zé Ramalho.

A ENTREVISTA

O Lula Cortes tem algum grilo com Zé Ramalho em relação a capa, ou isso é mito?

Há todo um mito em torno da história da capa e da própria relação dos dois. O Lula fala sempre do Zé Ramalho com muito carinho, reconhecendo toda a importância dele para a obra. O filme investigará tudo isso, desde a relação da dupla na época, os mistérios da capa, até a gravação do disco, lendas posteriores e tudo mais.

Vocês ouviram Zé Ramalho ou marcaram alguma coisa com ele?

Nós estamos em contato com o empresário do Zé Ramalho. Estamos agendando um encontro com ele.

Em torno de "Paêbiru pairam muitas lendas, vocês desvenderão todas no documentário?

Não sei se desvendar é a palavra certa. Há aquela máxima do filme do John Ford: quando a lenda é melhor que o fato, fique com a lenda. É lógico que vamos trazer à tona todos os fatos que envolveram a história do disco. Mas não vamos esquecer as lendas, as histórias fantasiosas. Todo um imaginário criado em cima da obra não pode ser esquecido. Até porque o" Paêbiru" foi idealizado a partir de outras lendas bastante fantasiosas.

Por que se interessaram em fazer esse documentário?

Eu trabalho há algum tempo fazendo um resgate do rock brasileiro produzido nos anos 60 e 70 e o Paêbiru é um disco essencial dentro desse contexto. É um disco rico em som e história, traz um diálogo interessantíssimo entre culturas nordestinas, uma ponte efervescente entre Paraíba e Pernambuco. Tudo isso é um pano de fundo perfeito para o filme. Não vai ser apenas um filme sobre o disco. É um filme sobre toda uma história. Estamos fazendo um documentário road movie, viajando em cidades diversas do interior dos estados, procurando as lendas, as histórias, o imaginário popular. O disco é o nosso objeto principal de investigação, mas a idéia é deixar tudo muito rico, até para tentar capturar a essência da obra.

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“O mundo todo ouve ‘Paêbiru’”

Leonardo Bonfim afirma que os europeus encontram no disco possibilidades nunca pensadas no campo da música psicodélica

Vocês sabem da existência de edições estrangeiras do disco em CD?

Existe uma versão inglesa recente. Os europeus são muito interessados em música brasileira e esse disco é um dos favoritos do mundo todo. Um inglês escuta o “Paêbiru” e encontra possibilidades nunca pensadas dentro da música psicodélica. É um universo à parte dentro da psicodelia clássica, seja o Pink Floyd britânico, as bandas norte-americanas ou até mesmo dos brasileiros mais conhecidos, como os Mutantes. O sabor nordestino espacial do disco dá o tom diferente.

Pelo que já gravaram, acha que há a mínima possibilidade do álbum ser editado 'oficialmente' em digital?

No Brasil é tudo muito complicado. Exceto Mutantes, qual disco de rock psicodélico foi relançado em cd? Quase nada. São muitos discos maravilhosos que ainda não viram a cor do sol. Mas há possibilidade sim, inclusive o filme pode ajudar a reacender um interesse do público na obra.

É sabido que Lula Cortes é arredio. Têm conseguido entrevistas elucidativas com ele?

Ele é uma figura ótima. Um artista em todos os sentidos da palavra. Todos os momentos com ele rendem cenas ótimas para o filme. Não sei dizer se "entrevista" é o que estamos fazendo com ele. Estamos observando todos os seus passos. Queremos captar o Lula de verdade, até mesmo para tentar compreender a figura que ele é.

Tanto Lula como Zé autorizaram o documentário e/ou demonstraram gostar da idéia?

O Lula abraçou a idéia desde o começo. Estamos procurando o Zé, mas acredito que ele goste também. O filme também é uma homenagem a essas duas figuras maravilhosas da música brasileira.

O documentário também abordará o lado místico das itacoatiaras?

Com certeza. Como falei acima, é um documentário road movie com toques fantásticos. Estamos mandando pro espaço todas as conveções formais dentro do formato documentário sobre discos. Pegamos uma kombi e nos mandamos, literalmente, para a estrada, sem muito roteiro ou alguma idéia pré-definida. Estamos entrando em cidades, por menores que sejam, para conversar com as pessoas sobre tudo. O lado místico na região é algo impressionante. Todo mundo, crianças e idosos, têm alguma história pra contar. E não é só a Pedra do Ingá, tem a Pedra do Pote, a Pedra do Ninja. Algumas lendas românticas, outras fantasmagóricas... Um mundo novo se abre para quem não é da região.

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Um encontro não por acaso

Quando um músico põe-se à prova além do som...

Sam Cavalcanti
Mestre em Música

- Olá!, sou Samuel Cavalcanti, músico paraibano, muito prazer!

- Olá, somos o Sr. e a Sra. 'Leitores do Jornal O Norte', mas, o que o traz aqui?

- Bem, na verdade este nosso encontro hoje, embora os senhores ainda não saibam, não é por acaso. Estou aqui para apresentar-lhes uma nova idéia, uma proposta. Os senhores já se deram conta do cenário musical paraibano? João Pessoa tem inúmeros artistas e também recebe com certa freqüência, músicos de todas as partes do mundo, mas, muitas vezes, não há críticas sobre o trabalho realizado, sobre cada som, cada estilo.

Eis então a minha proposta: resenhar sobre a maior diversidade possível de fazeres musicais em nosso solo pessoense, desde os Concertos Sinfônicos até as performances de DJ's e da música popular em geral. Não sei se é um tanto quanto ousado da minha parte, mas a proposta é essa mesmo! Não podemos fechar os olhos e ouvidos à gama diversificada de estilos que acontecem em nossa cidade.

A música voa solta por entre becos antigos, grupos de amigos, igrejas e mosteiros, teatros e praças, e isso precisa ser registrado em palavras e impressões. Como músico, a minha contribuição acontecerá na parte essencial do conteúdo sonoro apreciado, meu esforço será para contar uma história em cada resenha, contar em palavras aquilo que foi ouvido e analisar, à luz da ciência musical, cada proposta artística. Da 'Jampa' nova, de bandas que conquistam os nossos adolescentes, até aos mais saudosos ouvintes que tem, em sua memória, grandes e velhos nomes, podemos citar inúmeros exemplos de gêneros musicais e propostas artísticas sobre os quais valem a pena produzir comentários embasados e, ao mesmo tempo, informativos; comentários que eduquem e que sirvam de baliza para os próprios músicos.

Enfim senhores, esse nosso encontro foi planejado, e espero que seja o primeiro de muitos; há muito pano pra manga e muito assunto para nossos próximos encontros ou, se preferirem, muito som para nossos 'saraus de palavras'. Eles certamente terão como programa, filhos ilustres da terra, que nos brindam com som e sentido, mas também novos nomes, novos rostos; muita música que flui perto de nós poderá ser compartilhada, em impressões e palavras e divulgada para que muitos tenham acesso.

Então está marcado! Em duas ocasiões mensais, estarei aqui para cumprir nosso compromisso. Certamente com isenção e imparcialidade, mas, com sinceridade e umas pitadas de humor (pois não há nada menos interessante que um crítico chato). E fica combinado que os senhores poderão sempre opinar e sugerir sempre que quiserem.

E que o bom e saudoso Mário de Andrade nos abençoe!

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O esforço pela paz mundial

Livro organizado pelo cientista social Demétrio Magnoli traz ensaios sobre os principais tratados internacionais de paz

Sempre houve pessoas empenhadas em evitar guerras, prevenir situações de conflito, preservar a natureza e evitar a proliferação de artefatos nucleares. Mas será que, ainda assim, a insanidade dos homens conduzirá o planeta à sua destruição por conta de guerras nucleares e desequilíbrio ecológico? Será que temos feito esforços adequados para manter a paz entre nações e a habitabilidade deste nosso abrigo comum?

O cientista social Demétrio Magnoli reuniu uma armada poderosíssima para contar a "História da Paz", novo lançamento da Editora Contexto. Nessa legião da paz tem jornalista, historiadores, ex-ministro das Relações Internacionais, doutor em Economia, diplomata, coronel de Estado-Maior, embaixador, doutora em Relações Internacionais e em Ciência Política. Todos grandes especialistas em suas áreas.

O livro "História da Paz" será lançado pelo autor, em João Pessoa, na próxima quinta-feira (24), na Livraria Esquina das Letras, do Zarinha Centro de Cultura (ZCC), localizado na Avenida Nego, 140, Tambaú. Na mesma ocasião será lançada a revista "Interesse Nacional", a mais nova publicação brasileira de debates. O lançamento simultâneo integra a programação extra-oficial do Seminário "O Admirável Mundo Novo dos BRICs", que será ministrado por Magnoli, nos dias 25 e 26 deste mês, no auditório do ZCC. Mais Informações pelo telefone (83) 4009-1130, no site www.zarinha.com.br ou pelo e-mail diretoria@zarinha.com.br.

Tratados internacionais

"Evidentemente, ninguém imagina que basta todos vestirem branco e se dar as mãos para que a paz universal envolva pessoas e animais, montanhas e oceanos", comenta Magnoli. Para ele a paz é muitas vezes resultado de acordos diplomáticos entre líderes. Em "História da Paz", os tratados que edificaram a ordem internacional de uma época ou até mesmo registraram de forma duradoura os conceitos e leis de nações, são destrinchados e analisados pelos autores, desde o século IV até os nossos dias.

Magnoli explica que, por vezes, esses arranjos resultam de divisão de butins. Por vezes, são feitos para humilhar os perdedores. Nem sempre satisfazem a todos. Podem até conter, nos seus termos, indícios de uma nova guerra. "Alguns emanaram de guerras gerais e implantaram uma ordem nova. Outros definiram a natureza, o conteúdo e os limites do poder de impérios e grandes potências. Os ecos de todos eles continuam a repercutir entre nós", ressalta.

"História da Paz" estabelece, de certa forma, um diálogo com "História das Guerras" (Editora Contexto), também organizado por Magnoli e recentemente publicado. Em meio a guerras e situações de conflito, a paz pode surgir como fruto de conquistas, de esforços diplomáticos, conciliação entre poderosos e acordos entre iguais e desiguais.

Enquanto a guerra ganha espaço nos jornais, revistas, épicos no cinema, grandes obras literárias, a paz parece despertar muito menos discussões acaloradas. Só parece. Vontade política aliada à muita, mas muita conversa e diplomacia são responsáveis por negociações que resultaram em acordos que mantiveram o mundo em harmonia. Ou, ao menos, ajudaram a evitar catástrofes.

Em uma época em que os egos e a fome de poder ultrapassavam a civilidade, e Igreja e Estado dividiam o poder, era preciso encontrar uma forma de respeito aos acordos. Os dogmas e as regras religiosas sempre foram mais temidos que as leis impostas pelos soberanos. Entram em cena os Concílios Ecumênicos Medievais, regulamentando o poder da Igreja de Roma.

A Igreja muitas vezes legitimou uma divisão de butins, como é o caso do Tratado de Tordesilhas. No século XVII diversos países viviam suas guerras e ambições. Em a Paz da Westfália o mundo começava a aprender respeitar a soberania nacional, deixando para trás a forte influência da Igreja. A Europa continuava palco de guerras e desejos de conquistas e antes mesmo do delírio de Napoleão chegar ao fim, uma conferência de embaixadores das grandes potências redesenhava o mapa político daquele continente no chamado Congresso de Viena.

E quando as guerras não estavam na Europa, a Europa dava um jeito de ir até elas: a Guerra do Ópio terminou com a assinatura do Tratado de Nanquim.

O continente africano não foi esquecido pelos europeus. A África era sinônimo de riquezas e ali tinha muita a ser explorado: especiarias, pedras preciosas e ouro, entre outras coisas. E entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885 aconteceu a Conferência de Berlim, que reuniu as grandes potências colonizadoras para organizar a ocupação daquele continente.

De volta a Europa, o início do século XX foi brindado com a Primeira Guerra Mundial. E mais uma vez os líderes e diplomatas já estavam de prontidão pensando o pós-guerra. França e Inglaterra, de forma secreta, negociaram e dividiram o Oriente Médio, assinando, em plena guerra. o Acordo Sykes-Picot. Finda a Guerra era assinado, agora de forma oficial, o Tratado de Versalhes.

A Conferência de Bretton Woods é um bom exemplo de como as relações internacionais atuam em meio às crises. Dela nasceu a nova ordem monetária: o dólar, substituindo o desvalorizado ouro.

Yalta, na Ucrânia, recebeu os três principais líderes que ajudaram a derrotar o Nazismo: Churchill, Roosevelt e Stalin. A pauta de discussão era como o mundo trataria a Alemanha a partir dali. Mais tarde aconteceria outra reunião, dessa vez em Potsdam, na Alemanha. As Conferências de Yalta e Potsdam dividiram Berlim em quatro, a Coréia em duas, o Japão ocupado pelos americanos e o Leste Europeu pela União Soviética.

O ORGANIZADOR

Demétrio Magnoli é sociólogo, doutor em Geografia Humana pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e integrante do Grupo de Análises de Conjuntura Internacional (Gacint) - USP. É organizador e co-autor de "História das Guerras" (Editora Contexto).

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