Aline Duran diz que "o que me atrai na arte é que para entendê-la é preciso entender o mundo e as pessoas. A arte aproxima as pessoas e é para isso que ela existe". Com essa frase politicamente correta ela trabalha na divulgação de seu primeiro CD, "Novo Dia" (Deckdisc, R$ 22,00) e admite que o espaço para as mulheres no universo do Reggae é demasiadamente pequeno. "Não sei se isso decorre de um preconceito, de um machismo inconsciente, mas mesmo a nível mundial sempre foram poucas as cantoras que se destacaram cantando reggae", disse em entrevista ao caderno Show por telefone.
O disco de estréia da cantora-compositora começa com uma faixa de apresentação ("Bem-vindo à Selva") com texto longo que tenta descrever quem é a moça ousada que se enfiou no meio dos 'rastaman' e não está nem aí para algum tipo de discriminação que possa aparecer. "Não creio que haja esse preconceito porque tive o apoio de músicos e do produtor Rafael Ramos para fazer esse disco, mas eu não me intimidaria caso isso acontecesse. Sou ousada e determinada", garante.
"Acho que o fato de existirem poucas cantoras de reggae se deve ao fato de que elas se acomodaram fazendo backing-vocal", tenta montar o quebra-cabeças. Mas Aline cita Rita Marley e Desirée como nomes que chegaram a despontar, embora os ícones ainda sejam Bob Marley, Peter Tosh, Alpha Blondy e Gregory Isaacs entre outros. "Se existe isso, é hora de mudar", diz a sorrir e lembrando: "Eu estou chegando".
Para Aline Duran o purismo não cabe mais em nenhum gênero musical e com o Reggae não é diferente. "Eu introduzo outros ritmos e elementos do Hip-Hop em minha música, além de outros ritmos que considero pertinente em determinada canção. Eu rejeito essa coisa de que você tem de fazer uma música pura, e não creio que a fusão de ritmos seja algo depreciativo".
O leitor deve estar curioso para saber quais as influências de Aline como cantora, mas não vem do Reggae a sua vontade de cantar. "Eu sempre ouvi muita música brasileira e na verdade a cantora que primeiro me chamou a atenção e de quem sou fã foi a Elis Regina". Talvez por isso a música de Duran seja assumidamente jamaicana mas sem aquele ar de pasticho, justamente porque ela tem a mente aberta. Aline admite seu ecletismo pessoal: "Admiro cantores como Dennis Brown, Lauryn Hill, Michael Rose, Damian Marley, entre outros. Tenho várias influências e não tenho um cantor específico no qual me inspiro. O que faço quando estou no palco é me entregar de corpo e alma e passar minha mensagem de forma sincera".
A intérprete lembra que "antes mesmo de começar a cantar eu já compunha, mas em meus shows eu inseri releituras de clássicos de outros autores", lembra Aline Duran. "Mas quando surgiu a oportunidade para gravar esse meu primeiro disco achei que devia recorrer às inéditas, e aí pesaram as coisas que eu mesma havia escrito", informa. "Percebi que era o momento de me mostrar como intérprete e ao mesmo tempo levar ao público meu lado autoral", explica.
E sobre a cultura jamaicana onde os Rastafari lutam pela legalização da Maconha, o que Aline Duran pensa? "Não acho que seja ainda a hora de legalizar, antes de um debate amplo e sem mitos, mas não recrimino quem usa. O que acho horrível é o tráfico, por isso recomendo a filosofia do plante e use, para não ser moeda de traficante. Sobre a maconha acho que é uma erva como tantas outras e acho interessante o avanço que já tivemos no sentido de não prender e nem autuar o usuário", decreta.
inícioA técnica - alguns dizem arte - de restaurar e encadernar livros sempre foi bastante requisitada no mundo inteiro por editores e bibliófilos, desde que, no alvorecer do século 15, o alemão Johann Gutemberg inventou os tipos móveis e imprimiu o primeiro volume da Bíblia. Apesar disso, esta arte ou esta técnica, no Brasil pelo menos, nunca chegou a ser uma grande profissão, no sentido quantitativo do termo, ficando restrita ao domínio de poucos, e o que é pior, correndo o risco, nos dias atuais, de simplesmente desaparecer.
Em João Pessoa, um homem de 57 anos acaba de completar 40 dedicados à profissão de encadernador de livros e revistas, embora domine, também, a arte ou a técnica da restauração, da limpeza e da prevenção. Antônio dos Santos, ou Chiola, como é mais conhecido entre jornalistas, livreiros, estudantes, professores, pesquisadores e diletantes da leitura, começou a trabalhar na área em 1968, motivado pelos constantes lançamentos de suplementos na imprensa e a conseqüente demanda por encadernações.
Chiola começou a ganhar a vida como jornaleiro. O salário era pequeno, mas o contato diário com os jornais e seus assinantes chamou sua atenção para uma novidade: a variedade de suplementos encartados e, nas bancas, o grande número de novas publicações - como a revista Veja e a coleção Medina e Saúde, que saía em fascículos - que os leitores gostavam de colecionar e guardar - encadernados - em suas estantes. "Isso dá dinheiro", pensou o jovem daqueles anos rebeldes.
O encadernador Paulo Soares era amigo de Chiola. Este, já de olho na área, pediu ao primeiro que o iniciasse na técnica. Soares não se fez de rogado e ensinou o que sabia ao amigo. "Aprendi rápido. Fui me aperfeiçoando, ocupando o meu espaço, e as pessoas passaram a requisitar os meus serviços", disse ele, em entrevista ao Show.
Em 1970, por encomenda do então gerente Marcos Noronha, Chiola começou a restaurar as coleções antigas de O NORTE e encadernar as novas, trabalho que faz até hoje. "É um dos trabalhos mais importantes do meu currículo. Foi uma experiência muito enriquecedora ter acesso a esses verdadeiros capítulos da história paraibana, que são as coleções do jornal O NORTE", ressalta ele.
Em 1974, Chiola foi contratado pelo jornal oficial A União, no cargo de encadernador, onde também trabalha até hoje. "Aprendi no peito e na raça. Nunca fiz nenhum curso profissionalizante, mas fui monitor do Serviço Social do Comércio, dando aulas sobre encadernação, o que foi muito significativo para mim", acentua.
O contato com os livros e jornais fez de Chiola um leitor. "Já peguei o hábito de ler. Naqueles livros mais antigos eu procuro aprender o que está escrito; trazer aqueles conhecimentos para dentro de mim através da leitura. Isso é muito importante", comenta. Mas apesar dessa intimidade, o encadernador não montou biblioteca nem tem estante de livros em casa. "Leio apenas os que chegam para restaurar ou encadernar", confessa.
Juízes, advogados, contadores e professores são algumas das categorias profissionais que mais procuram Chiola para restaurar ou encadernar livros. Ele também recebe encomendas de empresas jornalísticas, órgãos públicos e entidades culturais. "Graças a Deus não falta serviço. Trabalho com muito carinho para agradar os clientes. O importante é que eles voltem e falem do meu serviço para os amigos", diz.
Para Chiola, o mais gratificante na sua profissão é quando um cliente manifesta satisfação pelo trabalho feito. "Quando a pessoa pega no livro, gosta do meu trabalho e diz que esse trabalho precisa ser preservado, essa é a minha maior satisfação... eu realmente fico muito contente", destaca.
Chiola não tem dúvidas quanto ao perigo de extinção que ronda a sua profissão. "A profissão de encadernador está ameaçada devido aos novos tempos. As pessoas confundem a encadernação de capa dura com a de espiral. São técnicas diferentes. Elas desconhecem as técnicas e o método antigo, que é melhor e mais importante, tende a desaparecer", observa.
Por amar tanto a profissão que abraçou, Chiola coloca-se à disposição de entidades como Sesc, Senac e Sesi para dar cursos de encadernação e restauração. Amor, zelo e dedicação. Eis o que significa a profissão de encadernador para Chiola.
Quando o assunto é preço, muitas pessoas pensam que encadernar livros e revistas. Chiola desmistifica isso. Uma coleção mensal de jornais sai por apenas R$ 70. Se for tablóide (metade do tamanho de uma página de jornal normal), fica ainda mais barato: R$ 40. O tamanho ofício (ou A4) custa apenas R$ 22. A restauração de livro custa R$ 10 o volume, e a encadernação de cópias xerográficas, R$ 15. O preço de outros serviços fica a combinar. Os interessados em contratar os serviços de Chiola pode procurá-lo em sua residência (Av. Santos Estanislau, 734, Bairro dos Novaes) pela manhã, ou entrar em contato pelos telefones 83 3233-8086/8806-2886.
inícioaComo o Repórter Esso, o poeta e professor Carlos Alberto Jales foi testemunha ocular da história: estava no olho do furacão, no epicentro dos fatos que marcaram a rebelião de maio do ano de 1968, em Paris. Fatos que repercutiram em todo o mundo ocidental, inclusive aqui no Brasil, onde os jovens estudantes levantaram barricadas e resistiram bravamente ao regime militar instaurado no país no ano de 1964. Carlos, à época quase adolescente, era aluno do Instituto de Ciências e Desenvolvimento de Paris, quando a Cidade Luz encandeou os seus olhos com a explosão provocada pelos coquetéis molotov e pelo fogo que os estudantes ateavam em tudo o que representasse os tentáculos do poder. Afinal, era "Proibido proibir"! Autor dos livros "Educação: admirável mundo velho" e "Leitura: janelas abertas para o mundo", entre outros, Carlos é professor do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba e poeta contumaz, embora resista em enfeixar os seus poemas em livro. Nesta entrevista exclusiva a O NORTE, ele fala, entre outras coisas, como viu maio de 1968, na França, e como o vê hoje, quarenta anos depois.
Carlos Alberto Jales é graduado em Filosofia e Direito, com pós-graduação em áreas como Psicologia Escolar e Ciências da Educação. Foi professor da Universidade Federal do Maranhão, da Universidade Católica e da Faculdade de Filosofia do Recife e, atualmente, leciona na Universidade Federal da Paraíba. Publica artigos em jornais e revistas. É autor dos livros "Educação: Admirável Mundo Velho", "Leitura: Janela aberta para o Mundo", "Sociedade, Educação e Escola: temas (in)controversos" e "Inventação das Horas". Em maio de 1968, era aluno do Curso de Ciências para o Desenvolvimento de Paris, iniciado em 1967, um Centro de Formação e Pesquisa do Movimento Economia e Humanismo fundado por Joseph Lebret.
inícioA Ilha de Páscoa (pertence ao Chile desde 1888) é, sem dúvida, um dos pontos mais isolados da Terra. Fica distante 3.700 quilômetros da costa sul-americana.
Situada na imensidão do oceano Pacífico, ela é, como afirmou o antropólogo e explorador norueguês Thor Heyerdahl, autor de Aku-aku: O segredo da Ilha de Páscoa (1965), "o lugar habitado mais solitário do mundo. A menor e a mais solitária ilha do globo".
Questiona-se muito o porquê da extinção dessa minicivilização no Pacífico Sul. Existem várias teses, quase todas acenam para uma catástrofe ecológica, causada pela exploração abusiva de recursos naturais. A degradação ambiental na Ilha de Páscoa chegou a ser vista por muitos como uma metáfora do futuro próximo da Terra.
Em 2005, Jered Diamond, geógrafo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, lançou Colapso - como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Trata-se de uma obra polêmica, onde ele analisa a decadência do povo rapanui - os habitantes da Ilha de Páscoa. Suas teses se baseiam na ação antrópica negativa. Segundo Diamond, os nativos na obsessão religiosa de construir e transportar moai - figuras megalíticas que eram colocadas em vários altares (ahu) que circundavam a Ilha -, foram os únicos culpados pelo ecocídio.
Hoje, porém, esta tese é contestada. Não se pode responsabilizar os ilhéus pelo colapso da minicivilização de Páscoa, acusando-os pela autoria do terrível desastre que se abateu sobre a Ilha.
Para o antropólogo Terry L. Hunt (ver O colapso dos rapanui, Scientific American, 2007), "os resultados de novas escavações arqueológicas e de estudos de ecologia comparada indicam que essa história (a catástrofe ecológica) tem de ser reescrita".
De fato, ela está sendo reescrita pelo próprio Hunt e por pesquisadores chilenos sob a orientação do arqueólogo Claudio Cristino. A nova linha de pesquisa leva em conta uma constelação de fatores, muitos deles são conseqüências diretas da colonização da Ilha por polinésios e europeus. Sabe-se que "os primeiros colonizadores (os polinésios) trouxeram galinhas e ratos, ambos utilizados como alimentos. Mas os ratos (Rattus exulans), esses roedores prolíferos podem ter sido a principal causa da degradação ambiental". Essa é a hipótese central de Terry Hunt.
Ao invés de ecocídio, prefiro falar de genocídio que, ao longo dos anos, os colonizadores europeus dizimaram os rapanui, reduzindo-os no século XIX a 111 pessoas - anteriormente a população era de 15 mil habitantes. A maioria foi escravizada e levada para o Peru e grande parte dela morreu por conta de epidemias.
Esta é a verdadeira história da Ilha de Páscoa. Ecocídio é uma outra história...
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