Nas palavras do meu querido amigo e conterrâneo, vocalista e compositor da banda Paralamas do Sucesso "nessa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração". Herbert Vianna, paraibano apaixonado por aviões, hoje voa alto sem precisar tirar os pés do solo. Faz algo assim como indicava-nos Lobsang Rampa na sua filosofia de transmutação do espírito e da mente, que tanto busquei sem conseguir. Em um dos livros do guru oriental, "A Terceira Visão", ele antevia que o homem se tornaria selvagem. E acertou.
Para Herbert Vianna "hoje, Deus é a auto-imagem. Religião é dieta. Fé só na estética. Ritual é malhação". Orgu-lho-me ainda mais do autor de "Alagados" cuja letra foi pouco notada em detrimento da festa pop da melodia: "Favelas da maré, a esperança não vem do mar, nem das antenas de TV. A arte de viver da fé, só não se sabe fé em que". Mais adiante, na canção, ele filosofa ainda mais: "E a cidade, que tem braços abertos no cartão-postal/ com os punhos fechados da vida real/ lhes nega oportunidades e mostra a face dura do mal".
Trago em meu currículo afetivo, muito mais que profissional, a vaidade (sim, sou humano e sinto-a também) de ter sido o primeiro jornalista a ter feito uma matéria enorme com Herbert quando ele lançava por estas bandas o disco de estréia dos Paralamas. É verdade que depois do acidente que sofreu com seu avião, nos distanciamos, por uma série de fatores que aqui não me cabem aventar. Mas o carinho recíproco - creio - permanece intacto.
Quando a mensagem citada no início deste texto me caiu no e-mail, fiquei tão feliz que a saí espalhando para todos os amigos da minha agenda virtual. É um texto de um homem que sempre foi mais "ser" do que "ter" e que mesmo alegrando os corações com o pop banhado de swing de seu trio, nunca abaixou a antena da filosofia humana, a que debate sobre quais são os verdadeiros e importantes valores que nos cabem zelar.
"Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem". Os questionamentos de Herbert Vianna nos caem em boa hora e, quem sabe, consigam o efeito fundamental para que o ser dito humano se desamarre das bolsas de anti-valores e procure encontrar na moeda das coronárias a senha para a sua salvação. "Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação". Brilhantes os questionamentos de Vianna.
Ainda no texto do autor de "Alagados" está lá: "A máxima moderna é uma só: pagando bem que mal tem?". Ele vai mais fundo: "Jovens não têm mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada". E para fechar com um ponto de discussão aos que ainda crêem na salvação da raça, escreve Herbert Vianna: "Uma sociedade de jovens anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos, não é normal. Não é, não pode ser. Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva", fecha o texto do músico paraibano que ainda manda um verso de uma canção sua como suposto epitáfio: "Cuide bem do seu amor, seja ele quem for".
O mundo que Herbert enxerga é o mesmo que vejo passar pela minha janela. Os 'malas' se tornando heróis, os 'tolos' sendo ridicularizados por serem íntegros. A beleza física se impondo aos corações bondosos. A falta de cultura se agigantando perante a arte cheia de valores. E ainda tem quem pense que "isso não ofende", que "é um direito de cada um ter seu gosto". Ofender ofende e muito. Cada um ter seu gosto, também vale. O que não vale é a falta de gosto. O que não pode é se ver jovens - e adultos também, o que é pior - se balançando que nem gosma a som de "chupa que é de uva", "poeira, levantou poeira", "quer andar de carro velho?", "é na boquinha da garrafa".
Não é esse o mundo que queremos e nem é essa a forma de libertinagem que deve ser confundida com liberdade, com direito. Ninguém tem obrigação de ser intelectual e muita gente sequer oportunidade teve de. Mas é obrigatório que se entenda que um país que suprime Paulinho da Viola e Chico Buarque em prol de Aviões do Forró e Ivete Sangalo, está acometido de uma doença grave.
A cura existe, mas não virá mais com esse discurso inócuo de esse câncer é criação dos que ainda pensam. A raça humana está em coma, induzido, por causa de sua ignorância. O remédio tem que ser radical: é hora do senhor ministro da cultura lembrar de que sem educação não tem solução. E mais, lembrar que rádios e tevês são concessões públicas, portanto, que se faça valer o melhor para o país e para a sua população.