Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

Gonzaga Rodrigues


Didi

"...a maior parte da nossa memória está fora de nós, numa viração de chuva, num cheiro de quarto fechado (...) em toda parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência desdenhara, por não achar-lhe utilidade."

Marcel Proust só faltou incluir nesses milagres da memória um acorde de música, uma nesga qualquer da melodia que o acaso associa a um dos nossos bons ou maus momentos. Ele mesmo escreveu toda uma obra continuada, sete títulos um após outro, a partir de uma reação aparentemente gustativa, mas de todo o seu ser, a um bolo de infância que a empregada serviu ao homem de gênio numa hora de fastio, doença e recolhimento. Partiu de sua "madeleine" o universo que viria marcar o romance ocidental moderno.

Isto não é ficção. Sempre que vou ao Ponto de Cem Réis passo antes na calçada da antiga Nações Unidas. Fora a arquitetura da praça e o conjunto dos prédios, era ali que sempre me reencontrava com o único testemunho humano da praça ou da farra do meu tempo.

A conversa era a mais banal. Perguntava o que sempre perguntei, mudando os personagens, mudando o tempo, mas a pergunta a mesma. Tudo bem?

Havia outros carros de praça no antigo estacionamento central, entre os pavilhões, mas era em Didi que eu parava, era com ele que eu sempre terminava me entendendo. Procópio, Moacir, Rubens, Esperança, Antônio, quem mais?

A pergunta era apenas um pretexto para manter viva uma relação que tem muito a ver com a "madeleine". Sem a pretensão lírica ou romanesca do genial Proust, só pelo prazer de reviver, de voltar ao bar, ao café, a mim mesmo, sem a ansiedade antigamente instigada pelo futuro.

Didi era o que restava vivo do meu Alvear. As notícias e as respostas nem sempre boas.

- Tem visto Antônio?

Eram colegas de praça e amigos. Antônio é um conterrâneo meu, primo de Dom Pereira, brejeiro bem nascido e bem casado estabelecido na mesma praça de carros. Ficou mouco, não pôde mais dirigir, ausentou-se.

Mas não era só por ele ou pelos poucos que restavam dos velhos tempos que eu estacionava à espera de Didi. Não era nem mais pela resposta que ele pudesse dar às minhas perguntas. Todos já tinham escorregado pela Guedes Pereira, feito a última descida. Era pelo que os seus olhos e os seus cabelos brancos guardavam do nosso tempo. Tiro pela reação que vivi, há duas semanas, quando o esperei, fiquei bom tempo aguardando a chegada do seu carro, e me desenganaram.

Tomara que o prefeito faça outro Ponto de Cem Reis. Raspe o que me pertenceu, agora completamente desaparecido.

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