Os candidatos a uma das 5.810 vagas oferecidas no Processo Seletivo Seriado (PSS) 2009 da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) terão que desembolsar um pouco mais para garantir a inscrição. No início da semana passada, a Comissão Permanente de Vestibular (Coperve) divulgou o edital para o concurso e informou que a taxa cobrada está 10% mais cara, saltando de R$ 84,15 para R$ 93,50. A Coperve diz que o aumento foi estabelecido pelo Conselho Curador, mas os valores não agradaram aos concorrentes que acharam o reajuste abusivo.
“Achei que 10% foi um índice alto se comparado com o aumento do salário mínimo, por exemplo”, declarou a estudante Renata Cristina, que neste ano fará a prova do conjunto das três séries. Renata quer cursar Fisioterapia na UFPB e não se encaixa no perfil dos candidatos que têm direito à isenção, mesmo assim diz que a quantia exigida é alta para a realidade de sua família. "Meu pai é aposentado e minha mãe funcionária pública. Temos muitas despesas com minha irmã que estuda em outra cidade e tirar quase R$100 assim vai ser pesado para nosso bolso", reclamou.
Segundo o edital número 022/2008, o candidato vai pagar R$ 44 para se inscrever nas provas da 1ª série, quando no ano passado, a mesma inscrição saía por R$ 35,60. O fera que fará apenas o exame referente à 2ª série vai gastar R$ 27,50. Para o conjunto das provas da 1ª e 2ª série, o valor é R$ 66. Somente para a 3ª série, o interessado vai desembolsar R$ 27,50. Segundo o edital, os candidatos matriculados no ensino médio, em escolas públicas da Paraíba, terão isenção da taxa de inscrição. Entretanto, vão pagar R$ 10 pelo manual do candidato.
"Há dois anos não tínhamos aumento dessa taxa. É bom lembrar que a UFPB é a universidade que concede o maior número de isenções, que são ilimitadas", frisou o presidente da Coperve, João Batista Correia Lins Filho. Ele ressaltou que, no ano passado, a Coperve aprovou quase 21 mil isenções que são custeadas pelas demais. O dinheiro é utilizado para a compra de papel, impressão das provas e outras despesas.
Polêmica instaurada, a Coperve entrou em campo para acalmar os candidatos ao PSS. No início da semana, a comissão divulgou uma tabela de preços comparando os valores cobrados no Processo Seletivo Seriado 2009 da UFPB, realizado pelo órgão, com outras universidades federais de estados vizinhos. De acordo com informações da Coperve, em comparação com as Universidades Federais de Campina Grande (UFCG), do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Ceará (UFC), a taxa de R$ 93,50 para quem vai fazer as provas das três séries fica abaixo da cobrada nestas instituições, onde ela varia de R$ 95 e R$ 100.
Entretanto, a Coperve não informou os valores cobrados por estas mesmas instituições para as provas relativas à 1ª, 2ª e 3ª séries, além do conjunto das 1ª e 2ª séries. A exceção foi a UFCG, que cobrou R$ 55 pelo conjunto de provas da 1ª e 2ª séries e para a prova da 3ª série. Outro valor comparado pela Comissão Permanente de Vestibular foi a taxa cobrada para o conjunto de provas das três séries (candidatos que concluíram o Ensino Médio na rede pública do Estado da Paraíba antes de 2008) que custa R$33 na UFPB e R$79 na UFCG.
Apesar das justificativas da Coperve, o valor cobrado está mais caro que Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que custa R$ 90, e da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) que cobrou R$ 80 pela inscrição. O aumento de 10% também foi maior que o cobrado pela Universidade de São Paulo (USP) que reajustou sua cobrança em apenas 5,5%.
As inscrições para o PSS 2009 começam dia 6 de agosto e terminam dia 24 do mesmo mês. Para participar do vestibular, o candidato precisa preencher o formulário que está disponível no site da Coperve na internet (www.coperve.ufpb.br). Em seguida, precisa enviar eletronicamente o documento preenchido. O terceiro passo é imprimir a Guia de Recolhimento da União (GRU) e efetuar o pagamento em qualquer agência do Banco do Brasil. João Batista Lins disse que a expectativa é de 55 mil pessoas disputando as vagas oferecidas pela UFPB.
Já no dia 20 de agosto termina o prazo para a Coperve receber das escolas públicas da Paraíba retificações sobre alunos candidatos à isenção de taxa de inscrição e no dia 24 encerram as inscrições para o PSS. "É importante lembrar que o candidato só faz a inscrição com a identidade e o CPF. Além disso, a escola que não enviar o nome e o CPF do aluno inviabilizará sua inscrição porque ele ficará na lista de pendentes", informou o presidente da Coperve João Lins.
O dia 14 de novembro é a data limite para divulgação dos locais de provas do PSS 1 (1ª série) e do PSS 2 (2ª série). E nos dias 23 e 24 do mesmo mês ocorrerão as provas relativas às 1ª e 2ª séries, respectivamente.
O dia 9 de novembro é o fim do prazo para divulgação da relação de candidatos aptos às provas do PSS 3 (3ª série); no dia 11 a data limite para a divulgação dos locais de prova do PSS 3; e nos dias 21 e 22 as provas do PSS 3. Já no dia 30 de janeiro de 2009 é a data prevista para divulgação da primeira lista de classificados e do correspondente edital de cadastramento obrigatório.
Nas provas referentes ao primeiro ano e segundo ano do ensino médio (PSS 1 e 2), o candidato vai responder 68 questões, sendo 10 de Português, 10 de Matemática, 8 de Física, 8 de Química, 8 de Biologia, 8 de História, 8 de Geografia e 8 de Língua Estrangeira. No terceiro ano, haverá 10 quesitos por matéria e mais duas questões de produção textual. Segundo o presidente da Coperve, João Lins, para o PSS desde ano o órgão adquiriu mais 80 detectores de metal que se somarão aos 70 já existentes para evitar a fraude no concurso. Será eliminado o candidato pego com equipamentos eletrônicos durante a prova.
inícioO governo do Estado vai lançar amanhã as obras de ampliação do sistema adutor que beneficiará João Pessoa, Bayeux e Cabedelo. O lançamento será feito pelo governador Cássio Cunha Lima, às 15h30, na Estação de Tratamento de Água de Gramame. Serão investidos recursos da ordem R$ 124,2 milhões, provenientes do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, com contrapartida do governo do Estado.
A obra, que beneficiará diretamente uma população estimada em 1,4 milhão de pessoas, representará a segurança do abastecimento d'água para a Grande João Pessoa pelos próximos 20 anos. "O fato é que as cidades de João Pessoa, Bayeux e Cabedelo têm crescido muito, por isso, apesar de o volume produzido pelo sistema Gramame-Mamuaba ser suficiente para a demanda de hoje, temos que pensar no futuro", observou o governador Cássio, lembrando que, até 2010, 92% da população paraibana estará sendo beneficiada com novos sistemas de abastecimento de água.
O diretor de Expansão da Cagepa, Rubens Falcão, informou que a obra será executada pela construtora Camargo Corrêa e consistirá na construção de três barragens de nível, quatro estações elevatórias, dois reservatórios - um de 40 mil m³ e outro de 5 mil m³ - e uma adutora de 35 km de extensão, além da duplicação da capacidade de produção da atual estação de tratamento de água. A previsão para o término da obra é de 30 meses. "Apesar disso, já há um entendimento entre a Cagepa e a construtora Camargo Corrêa para que a execução seja acelerada o máximo possível para a conclusão em 18 meses", disse Rubens.
Paralelamente à ampliação do sistema adutor da Grande João Pessoa, a Cagepa estará executando obras pontuais em cinco bairros da Capital com a finalidade de reforçar as redes de distribuição d'água já existentes nessas localidades. Segundo Rubens Falcão, serão contemplados os bairros do Bessa, Valentina Figueiredo, Cidade Recreio, Seixas e Praia da Penha. "Além de assegurar a quantidade de água produzida com a ampliação do sistema adutor, estaremos investindo também na distribuição", observou.
No Bessa, segundo Rubens Falcão, serão investidos R$ 4,9 milhões; no Valentina, R$ 6 milhões; no Loteamento Cidade Recreio, R$ 2,7 milhões e no Seixas e Praia da Penha, R$ 270 mil. Nesses bairros serão executadas pela construtora Sanccol.
O município de Santa Rita também será contemplado com obras de ampliação e melhorias do sistema de abastecimento de água. Segundo o gerente de Obras da Cagepa, Joaquim Almeida, serão investidos R$ 3,5 milhões no reforço da rede de distribuição e na implantação de ligações domiciliares. Os serviços, de acordo com ele, beneficiarão uma população estimada em 36 mil pessoas.
Até 2010, segundo dados da Cagepa, a Paraíba terá dobrado o número de domicílios dotados com cobertura de esgotamento sanitário. "Estamos aumentando de 26% para 52% a área com cobertura de rede esgotos na Paraíba", disse Rubens Falcão. Ele revelou que até agora já foram investidos pelo governo do Estado R$ 44 milhões em obras de esgotos em 13 municípios paraibanos.
Rubens Falcão revelou, ainda, que atualmente estão em execução pela Cagepa obras de esgotos em 18 cidades paraibanas. "Em termos de números, isso significa investimentos superiores a R$ 63 milhões", observou o diretor de Expansão da Cagepa. "Estamos executando, certamente, o maior programa de saneamento básico já realizado na Paraíba", completou.
O diretor de Expansão da Cagepa assegurou que os investimentos em esgotos não param por aí. Só em João Pessoa, segundo ele, o governo do Estado, através de recursos do PAC, está iniciando obras em nove bairros: Bessa, Jardim Cidade Universitária, Altiplano Cabo Branco, Manaíra, Padre Zé, José Américo, Cruz das Armas, Funcionários I e Jardim Ester.
Rubens adiantou que estão em fase de licitação obras de esgotos que contemplarão as cidades de Bayeux, Cajazeiras, Guarabira, Patos e Santa Rita. "Com a conclusão dos processos licitatórios e a homologação das construtoras vencedoras, as obras serão iniciadas ainda este ano", assegurou o diretor da Cagepa. "Em Bayeux, estaremos investindo R$ 8,2 milhões; em Cajazeiras, R$ 4,9 milhões; em Guarabira, R$ 4,9 milhões; em Patos, R$ 5 milhões e Santa Rita, R$ 9,5 milhões", concluiu Rubens Falcão.
De 2003 até hoje, segundo dados revelados pela Cagepa, o governo do Estado, em parceria com o governo federal, já investiu algo em torno de R$ 48,5 milhões na ampliação, melhoria e implantação de novos sistemas de abastecimento de água. Segundo Rubens Falcão, já foram concluídas 128 obras em 99 municípios paraibanos.
Entre as obras de abastecimento de água executadas pela Cagepa nos últimos cinco anos, Rubens Falcão destaca sete: a construção do novo sistema adutor do município de Santa Cruz; a construção das adutoras de Lagoa Seca, Santana dos Garrotes e Pirpirituba; a ampliação do sistema de Olho D'água; a melhoria do sistema de Brejo dos Santos e a ampliação do sistema do conjunto Valentina Figueiredo, em João Pessoa, que beneficiou mais de 120 mil moradores do bairro e de mais 20 comunidades adjacentes.
"Com os investimentos feitos no Valentina, por exemplo, asseguramos o pleno abastecimento de água daquela região pelos próximos 20 anos. Outra obra de grande importância foi a construção do novo sistema adutor de Santa Cruz. Lá, o governo do Estado investiu mais de R$ 1 milhão e acabou de vez com o sofrimento dos moradores daquele município", observou.
O diretor de Expansão da Cagepa disse, ainda, que atualmente estão em andamento obras em aproximadamente 20 municípios da Paraíba, com investimentos que ultrapassam R$ 30 milhões. "São obras já em andamento, como as adutoras de Araçagi, onde estamos investindo mais de R$ 10 milhões, e de Patos-Assunção, onde também estamos investindo mais de R$ 10 milhões", enfatizou Rubens Falcão.
Os investimentos feitos na área de abastecimento de água pelo governo do Estado em parceria com o governo federal não se restringem à Grande João Pessoa. De acordo com Rubens Falcão, algo em torno de R$ 19 milhões estarão sendo investidos na ampliação do sistema adutor de Boqueirão, que beneficiará aproximadamente meio milhão de pessoas que residem em Campina Grande e mais quatro cidades e dois distritos da região.
Rubens Falcão adiantou que o sistema de Boqueirão contará com a construção de uma nova adutora. "Na realidade, estamos pensando no futuro, pois o sistema atual garante o abastecimento de hoje, mas temos que nos preparar para o natural aumento da demanda nos próximos anos", observou.
O diretor de Expansão da Cagepa explicou que, além da cidade de Campina Grande, as obras de ampliação do sistema adutor de Boqueirão vão contemplar também os municípios de Lagoa Seca, Matinhas, São Sebastião de Lagoa de Roça, Queimadas e os distritos de Galante e de São José da Mata. Os serviços serão executados pela construtora CMR4.
início"Não preciso de modelos, não preciso de heróis. Eu tenho meus amigos". A amizade não tem face nem fórmula, mas atitude, é o que sugere esta frase do cantor e compositor Renato Russo. Verdadeiros amigos não distinguem classe social, raça nem diferenças. Precisam apenas olhar no mesmo sentido e direção, no momento de encarnar o amor em gestos. Hoje é o Dia Internacional da Amizade. Essa espécie de fio invisível que une duas ou mais pessoas é difícil de definir. Mais fácil seria exemplificar.
A reportagem de O NORTE foi encontrar bem no coração de João Pessoa um exemplo que ilustra a palavra amizade. Daquela forte mesmo, que se estende às gerações posteriores, fazendo laços para filhos, netos e até bisnetos, como uma verdadeira herança imaterial.
No início da década de 50, a família da aposentada Inês Pinto Ferreira, de 88 anos, foi morar na rua Odilon Mesquita, do Centro da Capital. Na época, ela conheceu a vizinha Ana César Cesário (já falecida), que tinha idade para ser sua mãe. Aquele encontro deixaria um tesouro para, pelos menos, as duas gerações posteriores.
Passados alguns anos, Inês se muda com filhos e esposo para a rua Índio Piragibe. Mas a filha de Ana Cesário, que se chamava Iracema Cesário (também falecida), foi morar com o marido justamente mesma via. Seria o destino apertando ainda mais os laços? "Nossas famílias hoje são como se fossem a mesma. Um acode o outro", garantiu a aposentada, mais de 50 anos depois.
Muitas lembranças de Inês Pinto estão relacionadas à família Cesário. "Recordo quando o filho de Iracema, que era caminhoneiro, saia para viajar de madrugada, minha mãe acordava e começava a rezar por ele. Ela dizia que fazia isso porque Iracema não podia mais fazer, já que tinha falecido", relata.
Essa fidelidade aliada ao amor incondicional pode ser um dos segredos para manter uma amizade por tantas décadas, perpetuando-a entre as gerações e assim vencendo até as barreiras da morte. "É porque sempre vivemos em harmonia e união. Nunca houve rivalidade entre nós. É como se fôssemos mesmo uma família só", conclui Inês.
A funcionária pública e filha mais nova de Inês Pinto, Ana Francisca Pinto Ferreira, 44, já nasceu nesse clima fraterno de amizade entre as duas famílias. Ela não consegue ver a família da matriarca Ana Cesário como simples vizinhos. "É um laço de amizade, respeito e consideração muito forte. Compartilhamos muitos momentos de alegria, de nascimento de filhos. No sufoco, um corre para o outro e nos aconselhamos", afirma. "Lembro que a morte do neto de Dona Ana Cesário (o caminhoneiro para o qual a avó rezava) foi uma perda muito grande para nós. Foi como o falecimento de um pai", garante.
Com o passar do tempo, os filhos de Dona Inês se tornaram amigos dos filhos de Iracema. E os netos seguiram o mesmo destino. Hoje, as duas famílias se consideram "do mesmo sangue" e a geração atual se apresenta à sociedade como parentes. É o que garante a enfermeira e neta Emmanuelle Pinto, de 28 anos. Ela e a estudante Ana Carolina de Araújo, de 28 anos, (bisneta de Ana Cesário) se consideram verdadeiras irmãs. "Férias, viagens, passeios, vivemos isso tudo juntas como irmãs. Eu fui a primeira pessoa que ela ligou quando o pai morreu. Eu peço até a bênção aos tios dela", relata.
Essas duas famílias, unidas pelo laço de uma verdadeira amizade, que atravessou décadas e gerações, enfrentam juntas dores e alegrias, como lembra Ana Carolina Oliveira, de 28 anos. "A família de Dona Inês viu a nossa nascer, casar, ter filhos. Somos uma família só", garante.
E será que os tataranetos de Dona Inês seguirão o mesmo destino? Se depender dos bisnetos, certamente os laços de amizade vão perdurar ainda por muito tempo. "Se existisse uma definição que fosse maior do que a palavra irmã, eu diria que é como considero Emmanuele. Combinamos que eu seria madrinha do primeiro filho dela e ela também seria do meu primeiro filho", lembra Ana Carolina.
Emmanuelle, por sua vez, também não tem dúvidas. "Com certeza nossos filhos também serão muito amigos", enfatiza. Mas o que faz uma amizade se perpetuar tantos anos? Qual seria o segredo? Existiria uma fórmula? Bem, algumas dicas podem ajudar.
Para Ana Carolina, quatro gerações de amizades entre duas famílias requer atitudes firmes a algumas características particulares. "Respeitar, gostar muito, confiar e principalmente cultivar", exemplifica.
Nessa receita, pode-se ainda colocar outros ingredientes. "Saber ouvir, conversar e estar presente em todos os momentos de alegria e de tristeza", acrescenta Emmanuelle, que também faz questão de dizer a mesma coisa da "irmã", sobre serem futuras comadres.
Há quem diga que amizade é como cerimônia de casamento. Mas só não existe o padre para dizer que "sejam felizes para sempre", nem para pedir o juramento das partes, diante do altar. Pelo jeito, entre amigos verdadeiros, tudo isso é feito de forma espontânea, às vezes até sem se dar conta, nos gestos involuntários. E essa promessa, na maioria das vezes silenciosa, vai até que a morte os separe. Ou mesmo segue até que os laços se perpetuem através das gerações, como no caso de Dona Inês e a família César Cesário, que hoje já aglutinou outros sobrenomes.
inícioNos relatos bíblicos do Antigo Testamento, mais especificamente no livro de Gênesis, a primeira mulher a habitar a Terra já carregava o fardo da culpa pelo pecado original e o conseqüente fim da mordomia no paraíso. Na mitologia grega, a história se repete. Pandora, a primeira mulher criada por Zeus e abençoada com todos os dons, também não escapou do estigma. Foi a responsável pela abertura da caixa que trouxe todas as desgraças ao mundo. Ambas representações femininas viviam a dor no seu sentido original — do latim, poena, que significa punição — por seus supostos erros. Na modernidade, as mulheres, aos poucos, livram-se das culpas, mas carregam um novo fardo, já comprovado pela ciência: sofrem em demasia e, quantitativamente, mais que os homens. Por isso, o ano de 2008 é dedicado à conscientização do impacto das dores em mulheres por determinação da Associação Internacional para o Estudo da Dor.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que a incidência de dor crônica no mundo afete 30% da população — no Brasil, seriam 50 milhões de pessoas, a maioria mulheres. Segundo estatísticas da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED), as dores lombares, nos ombros e joelhos atingem uma vez e meia mais mulheres que homens. No caso da enxaqueca, a prevalência nas mulheres é mais do que o dobro da ocorrência nos homens. E quando falamos em fibromialgia (dor crônica que ataca os músculos e tendões em pontos específicos do corpo), a proporção pula: são quatro mulheres para cada homem afetado pela doença.
O anestesista Robert Sabino explica que a mulher sofre e se queixa mais
devido a fatores hormonais e genéticos. Ele cita como exemplo a enxaqueca,
cujas crises se intensificam no período menstrual.
A enxaqueca faz parte do grupo de dores crônicas — como as que
afetam as articulações e perduram por semanas, meses e anos
— prevalentes nas mulheres. Também figuram nessa lista a fibromialgia,
a síndrome do cólon irritável (SCI), a artrite reumatóide,
a osteoartrite, a dor pélvica crônica e alterações
da junta têmporo-mandibular. A medicina também classifica outro
tipo de dor: a aguda, como a das cólicas menstruais e a dos partos.
No ambulatório da dor do Hospital de Base, as estatísticas se
materializam em queixas, sobretudo femininas, confirma a anestesista e especialista
em dor Gisele Leite L’Abbate. Ela pondera que a sensação
da dor é individual. “A intensidade dependerá da sensibilidade
do paciente, do histórico de vida e de como essa pessoa aprende a lidar
com os traumas.”
Para tentar dimensionar como encaram o fardo da dor no dia-a-dia, ouvimos
médicos, psicólogos e as próprias mulheres, que também
são responsáveis por eternizar um tipo de sofrimento tolerado
em nome da vaidade: os procedimentos estéticos, que vão de uma
simples depilação às cirurgias plásticas mais
complexas.
Colaborou: Maria Vitória
Se não bastasse sentirem a dor do parto, considerada a mais intensa de todas, as mulheres também são as maiores vítimas de um dos grandes males da modernidade: a enxaqueca. Segundo o clínico geral Alexandre Feldman, membro da American Headache Society e autor dos livros “Enxaqueca: finalmente uma saída” e ‘A dor de cabeça morre pela boca”, um quinto da população mundial sofre com o problema, e as mulheres são as maiores vítimas. “A explicação está no desequilíbrio hormonal freqüente na vida da mulher. A exposição aos hormônios externos, como pílulas anticoncepcionais, anéis vaginais e implantes, e o uso de substâncias que podem interferir nesse equilíbrio, como tinturas de cabelo e cosméticos.”
Como a enxaqueca é uma dor paralisante, a pessoa fica avessa a barulhos, luminosidade, cheiros e pode até apresentar quadros de depressão e agressividade, que atrapalham o convívio com a família e o rendimento no trabalho. Feldman conta que boa parte de suas clientes afirmam que a dor as torna anti-sociais com os filhos e marido e acaba privando-as do convívio saudável com pessoas que amam.
A dentista Janaína Araújo, 27 anos, sofre com o problema desde a infância. “Minha enxaqueca pulsa na testa e nas laterais da cabeça, como se fossem facadas. Às vezes, fico enjoada e quase sempre fico muito sensível à luz e a qualquer barulho. Por isso, me defendo ficando quieta. Acho até que a enxaqueca ajudou a compor minha personalidade mais reservada.” O jeito é tentar prever as crises, que geralmente ocorrem em períodos pré-menstruais ou mais tensos, e se recolher. “Já tive enxaqueca por três meses. Quando criança, afetava meu rendimento escolar. Hoje, faz parte da minha rotina, e eu faço o possível para conviver harmonicamente com ela.”
início