Jornal O Norte

João Pessoa, Quinta-Feira, 24 de Julho de 2008

Espaço Livre


Um fatídico 16 de julho

Carlos Pereira

Os cartazes começaram a aparecer no mês de março. Primeiro foi na sinuca de Alcântara, quando vindo da missa das sete da igreja do Rosário, depois da pelada no campinho da Cruzada, ouvi o comentário geral sobre a beleza daquele cartaz colorido que anunciava a realização, no Brasil, da IV Coupe Jules Rimet. Era um globo terrestre estilizado como uma bola de futebol, mostrando, com destaque, os continentes que iriam competir - América do Sul e Europa, pois à época, Ásia, África e Oceania não participavam e da América do Norte somente viriam os ianques, assim mesmo, desacreditados e candidatos a sonoras goleadas.

Depois, eles foram se multiplicando e, antes dos primeiros jogos da Copa, já eram mais comuns que as placas de Coca-Cola. Em todos os postes do DSEC (Departamento de Serviços Elétricos da Capital), em todas as portas de bares, botequins, mercearias e até nas portas monumentais da vetusta Igreja do bairro, eles foram colados. E era só no que se falava na segunda quinzena de junho e nos primeiros dias de julho de l950.

Os primeiros jogos da seleção não tiveram nem graça. A não ser um insosso empate com a Suíça em 2x2, o resto o time do Brasil tirou de letra, ou seja ganhou de goleada. Lembro bem que, no jogo contra a Espanha o time brasileiro arrasou e meteu sete na "Fúria" espanhola, com Ademir marcando 4 gols e a Seleção dando um baile, com direito a olé, marcado pelos mais de cem mil espectadores, ao som da marcha de Braguinha - touradas de Madrid.

O jogo final contra o Uruguai, no domingo l6 de julho, em consequência, era somente para convalidar o título que, por antecipação, na opinião de todos, a seleção brasileira já ganhara. Não havia um só torcedor que admitisse uma derrota do nosso time, sequer um empate era considerado - apesar de que um resultado igual também daria o título ao Brasil.

E foi nesse clima que nos preparamos todos de Jaguaribe para acompanhar a partida final da Copa de 50. Recordo bem que, quando alguém ousava, no sábado antes da decisão, levantar alguma dúvida quanto à conquista brasileira, e outros argumentos faltavam, vinha o último e definitivo:

- Ora, se este ano de 50 é o ano santo, se o Brasil é o maior país católico do mundo e se Deus é brasileiro, não deixará de dar a sua ajudazinha...

Como naquele tempo ainda não havia televisão, os jogos da Copa eram acompanhados pelo rádio. E foi diante de um possante Phillips holandês que na tarde do domingo nos reunimos na casa do tio Otávio, na avenida Minas Gerais. Era uma casa bem mais ampla e confortável do que a minha com novidade bastante expressiva: uma geladeira Frigidaire que nos propiciava água, guaraná e uma cerveja bem geladinhas.

Para as comemorações, tio Otávio tinha comprado muitas bombas chilenas e alguns foguetões, aproveitando a sobra do estoque das festas de São João. E os primeiros estrondos se fizeram ouvir, quando Friaça, ainda no primeiro tempo, fez o primeiro (e único) gol do Brasil. Depois, quando Schiafino e Giggia fizeram os dois gols do Uruguai, aconteceu um silêncio total.

Terminado o jogo as pessoas atônitas choravam pelas ruas, como se tivessem perdido entes queridos. Fato semelhante voltei a ver na Copa de 1982, quando a seleção foi derrotada pela Itália, quando Paolo Rossi fez 3 gols.

Restou-me, no dia seguinte, ouvir - pela rádio Nacional do Rio - a reportagem completa sobre a inesquecível derrota e a consolação que ficou. Tínhamos o grande artilheiro da Copa (Ademir, com 8 gols) e o maior público jamais registrado em um estádio de futebol - 220 mil espectadores.

Apesar da derrota da seleção, aquele foi um dos grandes jogos entre Brasil e Uruguai. Quem sabe, o maior de todos os tempos.

P.S. Uma leitora atenta, Eunice, ligou para corrigir equívoco da crônica de domingo. Na verdade o vinho Celeste era fabricado na rua da Areia e não na rua da República - este era o endereço da indústria que fazia o guaraná Sanhauá.

Jornalista
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